#41: Desafios da inovação em grandes escritórios de advocacia c/- Victor Cabral Fonseca

Capa do Podcast com Victor Cabral Fonseca.
48 minutos para ler

Você sabe quais são os desafios da inovação em grandes escritórios de advocacia?

O que será que você precisa aprender nos próximos anos para que você continue sendo relevante no mercado?

Será que você precisa aprender sobre programação?

E o que é o direito da tecnologia?

E em tempos de carros autônomos, o que as usinas nucleares e os elevadores podem ensinar aí os operadores de direito a encontrarem soluções jurídicas para situações complexas como as das tecnologias parecidas com os carros autônomos? 

Tudo isso foi tratado do episódio #41 do Laywer ro laywer, o podcast da Freelaw.

No episódio #41 Gabriel Magalhães entrevista Victor Cabral Fonseca.

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Victor Cabral Fonseca

É especialista de inovação, é advogado, coordenador do projeto Think Future do TozziniFreire Advogados, que é o primeiro programa de inovação estruturado por um escritório full service brasileiro.

Como advogado, Victor atende clientes de base tecnológica, grandes empresas interessadas em open innovation e também de startups. 

É graduado em Direito pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ele é mestre em Direito dos Negócios e Desenvolvimento Econômico e Social pela FVG São Paulo, e ele tem certificado pela Singularity University em Inovação Exponencial. 

Além disso, ele é professor de direito em startups do Insper em São Paulo. E por fim, o Victor também é coautor do livro Direito das Startups. O primeiro livro doutrina sobre o tema no Brasil, foi publicado em 2018 pela editora Saraiva.

E o Vítor também escreve vários artigos sobre as interações entre direito, tecnologia e inovação. Ele também é mentor do legal geek  la do Reino Unido e também do programa Law With out Walls da Universidade de Miami.

Gabriel Magalhães

É um dos fundadores da Freelaw e o Host do Lawyer to Lawyer. É bacharel em Direito pela Faculdade Milton Campos.

Possui formação em Coaching Executivo Organizacional, pelo Instituto Opus e Leading Group.

Formação em Mediação de Conflitos, pelo IMAB, e em Mediação Organizacional, pela Trigon e pelo Instituto Ecossocial. Certificações em Inbound Marketing, Inside Sales e Product Management pelo Hubspot, RD University, Universidade Rock Content, Gama Academy e Tera, respectivamente.

Escute o episódio em seu player de áudio favorito e leia o resumo do episódio abaixo que conta com todas as referências citadas durante a gravação.

Gabriel:Oi Victor, seja bem-vindo ao lawyer to lawyer, é um prazer receber você aqui. Você é um dos maiores nomes do Brasil no que se trata de inovação na advocacia. 

Estou doido para conhecer mais sobre os projetos que você está liderando, sobre o Think Future. Tenho certeza que você vai agregar bastante para os colegas advogados que estão nos escutando.

Victor: Oi Gabriel. Eu que agradeço a oportunidade de poder conversar com o público, conversar com você, participar do podcast.

Eu acompanho há um bom tempo, espero poder contribuir e assim a gente faz um trabalho que possa construir conjuntamente com o ecossistema de inovação no direito. 

Gabriel: Obrigado, Victor. 

Conta um pouquinho para gente como que você começou a se envolver com a inovação. Você sempre, desde o início da advocacia, se considera se considera inovador?

Victor: Me considerar inovador, eu não sei se eu sou a pessoa que poderia julgar isso mas a gente tenta. Vou contar um pouquinho do meu histórico, como que eu optei por seguir carreira especificamente nesse sistema. 

Comecei lá atrás como pesquisador do Sistema de Direito de Startups, entendendo quais eram os desafios jurídicos dessas empresas, o que elas enfrentavam no seu dia a dia. 

O que os empreendedores brasileiros podiam ou precisavam se preocupar para prosperar como a maior segurança. 

Ali, eu ainda não estava advogando, estava na parte acadêmica fazendo pesquisa, fazendo publicações, escrevendo sobre o tema. 

Iniciei o mestrado também dando continuidade a essa linha de pesquisa, ele era especificamente sobre startups e em algum momento a gente “pivotou” para um tema mais relacionado à tecnologia e o ensino do direito. E naturalmente, ao assumir uma função aqui no escritório de advogado do ecossistema de startups. 

Eu sou um generalista, não sou especialista em nenhum tipo de direito, nenhuma área do direito específica, como Tex, como trabalhista, como Corporate. 

Eu sou generalista dos principais desafios que startups enfrentam no seu dia a dia. E, aos poucos, eu também fui assumindo de uma maneira natural a função de um agente de inovação dentro da organização em que eu trabalhava e trabalho até hoje, que é o Tozzinifreire. 

Em julho de 2018 as histórias acabam se confundindo minha história e a história do escritório. 

Porque a gente opta ali naquele momento, em julho de 2018, por estruturar um programa de inovação específico para o escritório, que foi oficialmente lançado em setembro, no mesmo ano 2018. E eu fui convidado a trabalhar como o coordenador desse programa. 

É um momento ali que eu deixo de atuar fortemente como advogado de startups e passo a ser, de fato, alguém que está se dedicando a inovação interna do escritório. 

Então, meu histórico ele passa por uma fase de primeiro, um contato como acadêmico, com o ambiente de startups. 

Depois, como advogado de startups e agora, como alguém que busca aprender no ecossistema de startups formas de inovar e transformar a nossa profissão. 

É por isso que hoje eu estou aqui fazendo esse trabalho no escritório, não sou a única pessoa que faz isso aqui. 

Estou à frente do nosso programa, mas a nossa ideia de fazer para a organização como um todo, inclusive para o ecossistema como um todo. 

Apesar do nosso programa ser um programa de inovação interna, ele tem uma atuação muito forte e é um dos seus objetivos principais, inclusive, é contribuir para o desenvolvimento mais seguro do empreendedorismo da tecnologia e da inovação no Brasil. 

Então, isso é um pouco do meu histórico que apesar de ter começado mais no meio acadêmico que no profissional. Hoje minha história acabou se confundindo um pouco com a trajetória do Tozzinifreire nessa temática. E nos trouxe até onde a gente está neste momento em que a gente está conversando.

Gabriel: Legal que você passou por diferentes cenários. Primeiro na vida acadêmica e estudou inovação. 

Depois, realmente se tornou advogado de startups e agora liderando realmente um programa de inovação. 

Como implantar a inovação em grandes escritórios de advocacia

Gabriel: O que me chama atenção, a magnitude que é o TozziniFreire. Como que lidera a inovação em uma estrutura tão grande como essa? 

Victor: Um pouco do histórico do escritório, a gente completa este ano, 43 anos de existência. A gente tem, sim, mais de 1.000 pessoas trabalhando aqui dentre essas 1.000 pessoas, aproximadamente metade, um pouco mais da metade são advogados de formação e atuantes. Que realmente que trabalham nos casos, participam no dia a dia de grandes operações e tal. 

Nós somos full service, o que significa que a gente está em todas as áreas do Direito. A gente é capaz de prestar o serviço em todas as áreas do direito com a excelência que nos trouxe até aqui. 

Só que ao mesmo tempo que é um escritório não muito recente e um escritório de grande porte no Brasil, a gente também tem uma afinidade muito grande com temas, assuntos e estratégias inovadoras desde sempre. 

E aqui eu não estou falando só de iniciativas relacionadas ao nosso programa de inovação ou que fazem parte ali da estratégia específica de inovação do escritório. Mas alguns movimentos pioneiros que fizeram parte da história do escritório até então. 

Então, se a gente for olhar para toda a trajetória do TozziniFreire, a gente encontra primeiro um escritório 100% open space desde 2006.

Nós somos também o primeiro escritório a ter uma área específica para atendimento de startups e inovação, isso lá em 2016 e começo de 2017. 

Então, algumas atitudes que a gente tomou, algumas iniciativas que a gente conseguiu implementar ao longo dos nossos 43 anos de existência. Não somente a fundação do programa de inovação. Tornou a tarefa de inovar, nessa realidade atual, não diria que mais confortável, mas mais natural para um escritório como o nosso. 

Então a gente conseguiu reunir elementos de excelência, de uma história bem desenvolvida, não muito recente, de muito tempo no mercado e, ao mesmo tempo também ter um olhar mais criterioso, mais atencioso, para o que a gente precisa fazer para continuar nesse nível de excelência por todo o tempo de existência do escritório. Se preparar não só para um futuro, mas para diferentes possibilidades de futuro.

Trazer um programa de inovação para um escritório como o TozziniFreire tem desafios? 

Tem! Toda inovação é cheia de desafios que precisam ser superados, de todas as naturezas. 

E depois eu posso até contar um pouquinho de como que a gente tenta resolver esses desafios. 

Mas mesmo assim, apesar de ter muitos desafios, é uma coisa que foi muito natural para a gente que saímos muito bem. 

O fluxo aqui de trabalho permite esse tipo de trabalho, esse tipo de iniciativa, esse tipo de atividade. Que é realmente comportar que dentro de um escritório tradicional brasileiro um programa de inovação dedicado a planejar essas diferentes perspectivas de futuro.

Gabriel: Acho legal que você está trazendo isso. Porque a gente está vivendo uma bolha. E hoje todo mundo fala sobre transformação digital, e realmente tem que se falar sobre isso, porque é preciso que os escritórios se preparem para essa nova realidade. Só que a verdade é que a inovação vem muito antes disso. 

Então, igual você trouxe, se desde 2006 o escritório já está pensando em realmente otimizar o trabalho interno. E otimizar, fazer realmente práticas inovadoras como o próprio open space. 

Depois, quando chegam as novas tecnologias, talvez o processo é bem mais fácil. Do contrário, se escritório nunca pensou em nada antes. E agora fala assim, quero implementar novas tecnologias. Talvez o desafio vai ser muito maior. Não sei se você concorda.

Victor: Eu concordo. Mas eu vou primeiro fazer um panorama. Eu não gosto de associar, eu acho incorreto a gente associar tecnologia e inovação como sinônimos. 

Eu considero as duas coisas diferentes uma boa parte do meio profissional e acadêmico específico de inovação também considera, essa, não sei se uma ciência, mas uma área à parte, que para de pé sozinha. 

Peter Drucker já falava disso, Schumpeter falou disso, Christensen, que inclusive, morreu recentemente, agora que a gente está gravando esse episódio em fevereiro de 2020, morreu faz algumas semanas. 

Então a inovação ela para de pé sozinha, sem a necessidade de se associar a tecnologia. Claro, o desenvolvimento tecnológico, o surgimento de novas tecnologias, ele teve uma relação muito íntima com o que a gente chama de inovação. 

É uma grande parte da inovação também envolve tecnologia, mas eles não podem ser considerados sinônimos. Mas usando o exemplo. Agora sim como exemplo, a tecnologia e o direito não é uma relação nova. É isso que a gente precisa entender nesse momento.

Por exemplo, muito do que a gente lê hoje, o que a gente tem contato de material hoje em dia, considera um momento sem precedentes. Inclusive chamam isso de 4.0

Que é um tema que eu, particularmente não gosto muito. Não gosto muito desse nome. 

Porque uma tentativa de estabelecer fases, quando, na realidade a gente tem todo um histórico vai sendo construído ao longo do tempo. E também fica difícil a gente virar a chave para quando vai ser a 5.0.

Nunca sei se a gente ainda está na quarta, se a gente vai para cinco, quando a gente saiu da três ou se a gente está na três e meio. 

Então eu prefiro colocar ali como uma interação entre inovação e direito, que hoje vive um momento diferente. Mas não é algo recente, estão gosto de trabalhar com dois exemplos. 

Então vou pegar a questão da tecnologia para poder ilustrar esses exemplos.

O primeiro ponto disso é o que eu chamo de direitos da tecnologia, que não é uma área específica do Direito, mas, basicamente, é a sociedade se transformando e gerando desafios para o profissional do direito que envolvem a tecnologia.

Um exemplo, hoje fala-se muito de carros autônomos. É um novo elemento numa nova tecnologia que vem sendo introduzido aos poucos na sociedade. E isso gera uma série de discussões jurídicas, um movimento legislativo regulatório que objetiva dar as respostas a esses desafios jurídicos. 

E isso é um exemplo do que eu chamo de direito da tecnologia. Isso não é novidade. Porque não é novidade? Porque desde que o mundo é mundo, o ser humano desenvolveu novas tecnologias. Quando, lá atrás, a gente inventou um machado e 

entendeu que ele tem diferentes aplicações, inclusive algumas homicidas, por exemplo, na sociedade. A gente proporcionou, estudou, e proporcionou e resolveu quais eram as respostas jurídicas para essa nova tecnologia.

Então, não é a primeira vez que surge uma nova tecnologia, certo? A gente teve em algum momento, carros foram inventados, introduzidos na sociedade, desafios jurídicos. 

Um elevador foi inventado, introduzido na sociedade, desafios jurídicos. Ou seja, desde sempre a humanidade desenvolveu novas tecnologias e o direito teve que estudar e oferecer as respostas legislativas, ou até mesmo jurídicas no estrito senso, para essas novas tecnologias.

Um outro aspecto dessa interação é o que eu brinco. Mas na verdade existe um fundo de ciência nisso, que é a tecnologia no direito. Que é o uso de ferramentas tecnológicas na prática jurídica. E também não é novidade! 

Porque alguém poderia falar não, mas nunca existiu lawtec, agora existe. Concordo. Agora a gente está dando o nome de lawtec, mas a tecnologia já era utilizada no direito há muito tempo, desde sempre. 

Um exemplo, um artigo muito interessante que foi publicado há uns vinte, trinta anos, que analisava ali a consolidação do mercado jurídico norte americano e coloca no surgimento da introdução da sociedade, das tecnologias como o telefone, como máquina de escrever, como um aumento do nível de investimento que grandes escritórios de advocacia tiveram que ter. 

E surge ali o movimento associativo, que hoje são as sociedades de advogados. Então, para compartilhar os custos de você ter um telefone que era caríssimo na época. 

Hoje é obsoleto, mas na época era de ponta, você se associava a um outro advogado, vocês compartilhavam o custo e passavam ali a prestar o serviço conjunto. Então a tecnologia já é utilizada no direito há muito tempo. 

A gente não usou editor de texto desde sempre. Primeiro a gente usou a maquina de escrever. Não, primeiro a pena e papel, depois, papel e caneta, depois máquina de escrever agora word. 

Então os editores de texto são um exemplo de tecnologia, e-mail, eu lembro. Conversei com vários advogados que começaram a trabalhar, essas pessoas ainda estão no mercado hoje. Começaram a trabalhar no momento em que não havia e-mail. Então sem a existência de um e mail, você precisava buscar formas alternativas de se comunicar. 

Um dia pareceu o e-mail, e hoje em dia, o e-mail é inerente, faz parte do dia a dia de todo advogado.

Então alguém me pergunta: Você está dizendo que tem essa visão de continuidade, que a gente não está vivendo um momento diferente do que os outros? Não disse isso. 

O que eu disse aqui: a tecnologia e o direito, como exemplo de inovação aplicada ao direito sempre existiram. 

A diferença é que hoje as coisas acontecem mais rápido. Hoje, uma tecnologia que é introduzida agora no mercado, ela pode ser aperfeiçoada em questão de meses, em questão de semanas. Ela pode fazer com que outra tecnologia deixe de existir. 

Logo, a gente está vivendo um momento em que as interações entre tecnologia e direito são mais dinâmicas, são mais rápidas. Essa é a única diferença pelo que a gente viveu até agora. 

O que não é por si só suficiente para a gente instaurar um discurso de acabou a profissão. Vamos falar só de substituição, corram para as colinas que a advocacia acabou. Não é isso. 

A gente só precisa fazer o que a gente sempre fez: estudar e oferecer as respostas. E esse processo precisa ser mais rápido para poder acompanhar as mudanças que vão acontecendo na sociedade e no mercado. 

Então, o que estou querendo dizer até para, para sintetizar o pensamento é que não é o momento de desespero. É um momento de estudo, aperfeiçoamento, oferecimento das respostas e acima de tudo de percepção das oportunidades. Onde que a gente vai poder trabalhar. 

O que a gente vai precisar fazer para que essas oportunidades sejam identificadas e aproveitadas pelo profissional do direito.

Gabriel: Legal, Victor! Concordo bastante com você. Até em outros podcasts aqui da freelaw, a gente sempre fala que antes de buscar alguma tecnologia. É muito importante que você entenda muito bem qual é o problema que o seu escritório tem e como que você vai resolver esse problema. 

Ou seja, busque inovar ainda que seja com uma planilha do Excel para que depois você busque algo mais automatizado, algo mais robusto para aquele problema. Se não você está gastando mais dinheiro em um problema que você poderia ter resolvido de uma forma mais simples. E isso vários escritórios, eu acho que estão pecando por isso. 

Porque estão buscando muitas tecnologias, mas na verdade, eles estão com problemas básicos, estruturais, de gestão, de cultura do escritório. E eles estão ali, realmente buscando apenas a pontinha do iceberg para resolver o problema deles.

Victor: Eu concordo 100% com isso. Eu vou explicar, a realidade, isso não é um problema exclusivo do direito. 

O problema dessa questão de identificação de desafios para a proposição de soluções, é um problema existente e pertencente a qualquer grande organização que quer inova. 

Então a gente tem uma vontade muito grande de entrar em contato com soluções. A gente tem uma curiosidade pelas soluções maior do que a nossa curiosidade pelos problemas. E isso para um projeto de inovação, ou para um programa de inovação, ou para uma iniciativa de inovação aberta ou fechada em grandes organizações, é bastante sintomático. 

Eu costumo brincar, uma vez estava dando uma aula e aí eu pedi para as pessoas abrirem um buscador na internet e digitar lawtecs e abrir a aba de notícias do buscador. 

Todas as notícias da primeira página e olha que eu nem fui para a segunda. Mas todas as da primeira página resultaram em reportagens sobre as soluções que estavam sendo disponíveis no mercado e não sobre processos e os problemas que essas soluções buscavam resolver.

Ou seja, hoje o foco das empresas, o foco das organizações, o foco e aí assim, estou ampliando a linha de raciocínio para além do direito tá? É pela solução, quando na verdade ela tem que ser no problema. 

Quais são os problemas que essas organizações enfrentam e que devem ou podem ser resolvidos com tecnologia, com ferramentas ou com a contratação de uma startup, de uma legaltec, de alguma outra empresa, para resolver aquela questão.

Então, baseado nisso, a gente já pode ter uma noção muito rápida do que é o mercado hoje. Quer renovar, quer renovar, quer inovar, está cheio de legaltec, a gente abre o radar de W2L que é um baita exemplo disso. 

Cresce exponencialmente esse radar. A gente vê cada vez mais empresas ali se credenciando, se associando, o que significa que um número crescente de lawtecs que vão surgindo no mercado. E há pouco trabalho no sentido de identificação dos problemas que você tem, dos desafios que você tem, para só depois buscar soluções. 

Esse é um erro crasso de qualquer programa, qualquer projeto de inovação, não só jurídico. Estamos falando de inovação em grandes organizações, seja inovação aberta ou inovação fechada. A gente precisa olhar para os problemas antes de olhar para soluções.

Rotina de um escritório  grande e inovador

Gabriel: Legal, Victor. E pegando esse seu olhar assim, sobre inovação e sobre essas lawtecs, sobre as tecnologias no mercado. 

Como você está liderando esse programa de vocês e de inovação? Se você puder compartilhar como que é mais ou menos a sua rotina, o seu dia a dia? 

Como você acha que outros escritórios também podem estar buscando por essas novas tecnologias de uma forma mais assertiva?

Victor: Certo, vamos lá. Vamos falar primeiro sobre a primeira pergunta que é especificamente como que a gente resolveu oferecer a resposta. E o curioso, para o que eu vou falar agora é que muitas vezes pode ser confundido como: vocês estão abrindo a estratégia de vocês?

Não, a nossa estratégia foi pensada, até para fazer uma conexão com a fala anterior, para os desafios que a gente encontrou dentro da nossa organização. 

Então, o nosso programa era pensado de uma forma personalizada, para o que a gente precisa resolver aqui dentro. 

E para buscar isso antes de propor como seria o programa de inovação ideal, eu fui conversar com sócios, eu fui conversar com os diretores, eu fui conversar com todos os profissionais do escritório com quem pude ter acesso.

Para identificar o que eles tinham de demanda, o que eles tinham de desafio. Para só depois a gente estruturar um programa personalizado para resolver essas questões. 

E aí surge o Think future, o nome do nosso programa, em setembro de dois mil dezoito, com uma proposta que pode ser sintetizada em dois grandes trabalhos: mudança de cultura e transformação digital. 

Nós não somos um programa ou uma área que objetiva e busca substituir as áreas de TI, de operações ou alguma área jurídica. A gente quer trabalhar em conjunto com elas para identificar o que o escritório tem de demanda e oferecer as melhores respostas. E basicamente todas essas respostas podem ser agrupadas no que a gente chama de eixos de transformação. 

Então, hoje o Think future tem 6 estes de transformação. Vou falar o nome inglês e traduzindo aos poucos: events – eventos, space – espaços, tech que é o de tecnologia, partnership são parcerias, academy que é o ambiente acadêmico e culture que é a questão da cultura. 

Então, o que a gente oferece de resposta? Todas as nossas ações, elas são enquadradas em um ou mais desses eixos de transformação. Por isso o meu dia a dia é incerto. Tem dias que eu vou trabalhar muito fortemente com uma questão tecnológica e aí eu vou ter como suporte o nosso departamento de TI. 

Tem dias que eu vou trabalhar com uma questão cultural e essa questão cultural obviamente, vai ter que ter um suporte da área de RH, ou de algum sócio do escritório que esteja enfrentando algum desafio específico. 

Então, a gente brinca que essa estrutura do think future é um sistema de freios e contrapesos. A gente encontra problemas e os resolve com os eixos de transformação e às vezes, a resposta para um está em outro. 

Por exemplo, é um grande desafio que a gente tem, qualquer pessoa, qualquer organização que queira implantar uma solução de tecnologia tem, é garantir a usabilidade. 

Então, como é que meu advogado vai usar aquela solução que a gente quer trazer? E se ele vai usar? 

Porque o fato da solução ser ótima não significa que ele já vai naturalmente, substituir que ele fazia antes para usar aquela parte nova, aquela ferramenta nova. E aí para buscar a resposta para isso, às vezes não está no eixo tech. 

Às vezes pode estar no eixo de culture, eu vou precisar trazer treinamento, eu vou precisar mostrar para ele a relevância daquilo. 

Entender se aquilo faz parte do dia a dia dele, trabalhar com a empatia, colocar no lugar dele para saber como é que ele faz o trabalho dele, para saber se realmente precisa daquela tecnologia. 

Então, a resposta para um problema tecnológico não necessariamente está no eixo tecnológico, às vezes, está no eixo cultural. 

Por isso trazer um programa que ele voa independente aqui no escritório, que ele tem acesso às áreas jurídicas e administrativas, que ele se conecta com todo mundo. E consegue ali, de uma forma muito livre, de uma forma muito natural, espontânea, propor soluções criativas e diferentes para resolução de problemas. É um dos pontos chave. 

O nosso programa, ele não é nem jurídico nem administrativo, ele é do escritório. Ele não é uma área dentro do escritório, ele é do escritório como um todo. 

O time do think future é um time por esquadros, a gente monta os esquadros a depender do projeto que a gente quer implementar. E sempre com a ótica de uma que se imunizar ali. O uso das pessoas que a gente já tem aqui dentro. 

Porque muito do que se faz, às vezes numa grande organização é: vou abrir um departamento de inovação, vou trazer um time de inovação e esse time de inovação vai trabalhar ali.

E você dá aquela “pseudoautonomia” para essa entidade, dentro da organização. Que não vai conversar com o jurídico, que não vai conversar com o financeiro, que não vai conversar com o RH, vai conversar com TI. Vai ser uma baita área inovadora que vai inovar para si, e não para a empresa. A gente não quer isso. 

A gente quer ter um programa de inovação que vai se conectar com todo mundo. Vai trazer os profissionais dessas outras áreas para trabalhar nos nossos projetos e a partir daí, promover os objetivos principais da think future. Que é a mudança de cultura e transformação digital.

Gabriel: Só te interromper uma questão que eu acho que é legal destacar. Eu queria convidar os colegas advogados a perceberem a forma sistêmica que o Victor analisa o escritório dele o tempo inteiro. 

Então, analisa cultura, analisa processo, analisa tecnologia, analisa pessoas. E ele percebe que, às vezes o problema vai estar no treinamento, às vezes o problema vai estar realmente na cultura, ou às vezes na tecnologia. 

E a outra questão é que ele não está buscando uma bala de prata. Ele está ali realmente entendendo os problemas dele e fazendo com que a inovação aconteça de dentro para fora. 

Eu vejo muitos escritórios, buscando um consultor de marketing para ajudar, um consultor de inovação, alguém de outra área, achando que essa pessoa vai ser o salvador da pátria. Só que, na maioria das vezes, isso não é realidade, não sei se concorda.

Victor: Eu concordo. Eu acredito que o papel do Intraempreendedor, aquela pessoa que vai puxar a inovação dentro das organizações. Ele foi trabalhado muito bem por Christensen, pelo Eric Weinstein, que são teóricos de inovação bem conhecidos aí no mercado. 

Inclusive, posso dar algumas sugestões, de obras deles. Mas ele é fundamental, do ponto de vista organizacional para poder ser aquela pessoa que vai centralizar e fomentar a inovação dentro de uma grande organização. 

Aqui, no caso de um grande escritório ter uma pessoa que vai ser o catalisador dessas informações, a pessoa que vai estar sempre olhando para a inovação e o detalhe precisa ser de forma dedicada, ou seja, não pode acumular muitas funções paralelas.

O ideal é que se acumule nenhuma na verdade, além da inovação. É fundamental. Por outro lado, essa pessoa como você bem marcou, não é o salvador da pátria. Para ele poder fazer o trabalho dele, ele precisa de subsídios, subsídios que eu até brinco, parece música de samba. 

De cima para baixo, de baixo para cima, que basicamente é um apoio do escritório, da organização, no caso, diretoria, ou no caso do comitê executivo, um conselho administração, no caso de uma empresa, esse tipo de coisa. 

Ele precisa ter o apoio dessa gestão do escritório, dos tomadores de decisão e ao mesmo tempo, isso também é um desafio. Você precisa garantir um engajamento dos executores. Que é quem vai ser de fato impactado por aquelas mudanças no seu dia a dia. Ouvi-los, aceitar as ideias, trabalhar como um funil de ideias. 

Então, apesar de você ter uma pessoa ou algumas pessoas dedicadas à inovação, numa grande estrutura. Essas pessoas, esse time dedicado à inovação precisa olhar a organização de uma forma muito transversal. Não restringir escopo de atividade, salvo se a inovação for dedicada a um tema específico, como por exemplo PED.

Inovação e PED são coisas muito parecidas, mas não são sinônimos. Mas vamos pegar uma organização que tem um departamento de inovação voltado ao lançamento de novos produtos. Aí ele precisa focar o trabalho dele no lançamento de novos produtos.

É obrigatório você ter esse foco? Naquele caso do exemplo, sim. Mas geralmente não. 

No nosso caso, a gente não está aqui só dedicado a pensar em novos produtos. A gente está dedicado a pensar em eficiência, em cultura, em flexibilidade, em auxílio para carregar, para a retenção de talentos para a atração de talentos. 

Para ser um escritório que o mercado enxerga de uma forma mais amigável, mais aberto a novas ideias, a construção de um ecossistema, tudo isso. 

Então, por não tem essa limitação de escopo, de foco. A gente acaba trabalhando realmente por projeto e de uma forma ligada aos outros departamentos e  as outras áreas do escritório. 

Nosso objetivo é, realmente, não ter mais objetivos. Se a gente for ser filosófico aqui. Nosso objetivo é ser algo tão natural, um canal tão natural de recepção de ideias, de pensamento de possíveis futuros. Que em breve, se o think future estiver em pleno funcionamento que ele se propõe a ter. 

Com a completude de desafios já ter formado, já entregues, já realizados, o que vai significar que a gente não vai precisar de um programa de inovação aqui dentro do escritório a gente já vai ter isso enraizado. 

Todo mundo já vai estar buscando essas novas alternativas, essas novas ideias, essa adequação às diferentes probabilidades de realidade que a gente tem.

Gabriel: Legal! Eu sei que você também trabalha perto do pessoal da Ace. A gente acompanha eles de uma forma bem próxima. E eu lembro de um podcast deles que eles falaram que assim, a gente não tem que ter uma área de inovação. 

Nós temos que ser a inovação. Todos têm que ser a inovação. Se a gente tem uma área só da inovação, talvez a gente tenha um problema. E o movimento de vocês buscarem, de fazer com que a área de inovação sul se transforme no todo eu acho que exemplifica muito isso.

Victor: Sim, isso não pode ser confundido, Gabriel. Por outro lado, com uma ausência de estrutura tá? 

Às vezes eu falo disso e em algumas discussões falo, tudo bem. A gente não tem que ter uma área de inovação? 

Não, a gente tem que ter, um grande escritório, uma grande organização precisa ter algo estruturalmente falando que vai ser dedicado a pensar, planejar, promover e fazer a inovação acontecer, certo?

Por outro lado, o que estou querendo dizer é que essa área de inovação, ela tem que ter uma conexão forte e envolver as outras áreas também. É um pouco diferente. 

Para a inovação funcionar, ela precisa de uma estrutura interna. Tem um artigo muito interessante que eu posso compartilhar para você, para você também se quiser indicar para os ouvintes, um artigo de uma diretora de inovação de um escritório global com sede nos Estados Unidos.

Que ela fala ali dos desafios de se estruturar uma iniciativa de inovação dentro de um escritório, para que os projetos consigam sair do papel, de fato acontecer. 

Então, a transversalidade, essa questão de se plugar as diferentes áreas e departamentos do escritório, não pode ser confundida com uma ausência de estrutura. 

Essa estrutura é necessária, você precisa ter um time dedicado a isso. É importante que seja um time cem por cento dedicado a isso ou noventa e nove por cento dedicado a isso. Para que a gente não tenha eventuais confusões de prioridades.

Ou seja, precisa ser um time que precisa ter a inovação como prioridade. Seja ela qual objetivo ela tiver dentro da organização. Mas é um time que precisa ter portas abertas e conexão com a organização como um todo, ou com outras áreas, a depender do seu principal objetivo ali.

Por onde começar a inovar

Gabriel: Legal. Acho que não adianta você ter só uma cultura inovadora se os procedimentos não estão fomentando inovação né? 

Acho que tem que estar tudo integrado. E assim, pegando tudo isso, como que você acha que o escritório pode criar algum programa de inovação? 

E grande parte dos ouvintes aqui que estão nos escutando tem escritórios bem menores do que o TozziniFreire. E é difícil ter uma equipe exclusiva para isso. 

A maior parte deles, inclusive me relata que eles precisam se desdobrar entre a advocacia, audiências, a rotina já bem desgastante da advocacia e também buscar a inovação. 

Como que você acha que eles podem vencer esse desafio?

Victor: O primeiro passo é você olhar para dentro, certo? 

Se você for em um escritório menor, um escritório boutique, um escritório médio, às vezes um time dedicado cem por cento à inovação não faria sentido, concordo. 

Porque primeiro é mais, não diria que é mais fácil, mas o escritório que tem um porte menor é mais fácil de você mudar a direção, é mais fácil de você colocar ali novos projetos, novas iniciativas. 

E até mesmo mudar completamente a estratégia sem necessidade de uma movida muito grande tá? 

É aquela analogia famosa do que é mais fácil você virar no mar, um submarino ou um transatlântico? 

O transatlântico demora mais, precisa de mais pessoas trabalhando. O submarino você precisa de uma pessoa, duas, girar o volante e você virar na mesma hora. 

Por outro lado, você precisa olhar para dentro. Inovação é muito trabalho de diagnóstico resposta. Muito menos do que você olhar só para o mercado para tentar buscar soluções. 

Então, sempre de uma maneira crítica e analítica ver onde você pode melhorar. E a partir do momento que você identifica essas demandas de melhora, aí sim você busca soluções.

Você não precisa no escritório menor, no escritório médio, ter um time para isso, é uma ação pessoal. Você pode ser inovador, olhar para o seu dia a dia. 

Eu sou um advogado de contencioso, que faz audiência todo dia, que faz um trabalho repetitivo a esse é o núcleo do meu negócio. Como que nesse meu dia a dia eu consigo melhorar? 

Padronizar uma minuta, fazer audiência online, tentar usar visual law para poder diminuir meu tempo de conversa de com o juiz. Prevê também mais rápido o que eu preciso no memorial, no despacho, enfim. 

Tem várias estratégias que você pode ter sem você precisar olhar para organização como um todo. Olhar para a própria prática. Isso você faz no escritório pequeno, no escritório médio, no escritório grande, no escritório global, independente do porte, isso é possível de ser feito.

Então o primeiro passo é sempre olhar para dentro.

E segundo, não se desesperar. Olhar, como eu falei antes, para esse momento como um momento de oportunidades. 

Se você focar ali, na quantidade de notícias que falam da substituição da mão de obra, que falam que a profissão está acabando, você entra em desespero e passa a dar tiros para todos os lados. E tudo que é desesperado, o resultado tende a não ser muito bom. Então, trabalhar com precisão.

A tecnologia existe, ela está aí, a inovação existe, ela está aí. Ela vai impactar na profissão de alguma forma, como eu me preparo para isso? E as respostas podem ser diversas. 

Muita gente vai levantar a mão e falar, aprende a programar, aprende a tecnologia. Eu não vou resumir as estratégias, as iniciativas, os passos que você tem que dar a uma receita, a algo já pronto, algo pré-moldado.

O que a gente precisa fazer é, o que eu preciso fazer diante da minha realidade? E às vezes, a programação, tendo ela como exemplo, não é a melhor estratégia. 

Tem outras coisas que você pode aprender a fazer, que você pode trazer para o seu dia a dia, que são tão ou mais relevantes de uma técnica de programação. 

Eu trabalho com tecnologia, por exemplo, costumo brincar que eu nunca escrevi uma linha de código e mesmo assim eu consigo conversar com o programador. 

Consigo entender o que ele precisa na hora de dar as respostas e, ao mesmo tempo usá-lo para dar as respostas para o meu time de advogados. Trabalhar harmonizando as linguagens, harmonizando os conceitos, sem precisar programar para isso. 

Então, como exemplo, as pessoas geralmente falam a identifiquei esse gap, essa lacuna do meu trabalho. Preciso buscar a soft skills, as habilidades suaves. 

Essas soft skills que os que o pessoal brinca, costuma ser a resposta do momento para a sua adequação profissional à nova realidade. Eu penso além. 

Primeiro, quais soft skills são essas? E será que são realmente skills? Ou são várias iniciativas pessoais que você pode ter que também significam preparo a uma realidade mais dinâmica? 

Vou dar o exemplo, duas coisas. Primeiro, dentre essas famosas soft skills, repito a questão da programação, mas vou falar também de gestão de projetos, por exemplo, gestão financeira, contabilidade são outras habilidades, marketing, enfim. 

São outras habilidades que advogados podem ter, que são a depender do seu dia a dia, da sua prática, ou da organização em que você trabalha, tão ou mais importantes que a programação.

Então eu não digo, você precisa aprender a programar se não, você vai ser um advogado irrelevante no futuro. 

O advogado irrelevante no futuro, vai ser aquele que não sabe identificar o que ele precisa fazer. O que vai ser relevante é o que o que identifica e o que faz. Esse é o primeiro ponto.

E aí a resposta não sou eu tenho que dar, é a organização que você trabalha, como é o seu dia a dia, o que você faz. 

Eu, por exemplo, citei o exemplo de não ter aprendido a programar e até hoje para mim não me faz falta. Se não, já teria buscado algo assim. Mas hoje, no meu dia a dia, no meu trabalho, não preciso aprender a programar.

Enquanto não precisar, eu não vou fazer. E tem obviamente centrado nas questões de talento e tal. 

E um outro ponto é o que especificamente um advogado precisa fazer ou saber, ou melhor, o que ele precisa ser para para continuar relevante, com essa realidade diferente, mais dinâmica, mais rápida, mais tecnológica que a gente, vê hoje.

E aí não é só a habilidade, Gabriel, a gente está falando de outras coisas também. Tolerância a erro, inteligência emocional, empatia, foco no cliente, são um monte de coisas que a gente vê hoje sendo discutidas na inovação como um todo, que podem ser utilizadas por advogados. 

Ou melhor, elas devem ser utilizadas por advogados. E o pior, isso você não ensina, isso você não aprende no curso. Isso você aprende trabalhando dentro de si, o que você precisa fazer. 

Então, volto ali no meu mestrado que foi sobre tecnologia e ensino jurídico. Ali gente identificou que o principal problema que as faculdades de Direito tem hoje, é justamente como preparar pessoas para o mercado de trabalho. 

E quando falamos de mercado de trabalho, não estou falando só do mesmo profissional. É o acadêmico também, como preparar profissionais e acadêmicos que sejam tolerantes ao erro, que consigam trabalhar com outras pessoas, que consigam pensar empaticamente no outro lado, pensar em quem vai ser o interlocutor. 

Quem a sua decisão afeta? Seja ela passou um cliente, seja um réu, caso você seja juiz, ou seja, um leitor de um artigo acadêmico. 

A questão da empatia é fundamental. Porque isso não basta você trazer no currículo uma mudança super-inovadora, trazer uma disciplina para ensinar a inteligência emocional. 

Não, isso você ensina com exemplos, você ensina botando a pessoa para trabalhar, você ensina, incentivando a participação desse indivíduo, desse aluno em outros lugares.

Então, o desafio da transformação no direito, hoje, ele passa sim por ferramentas, estilos e habilidades. Mas ele também passa pelo famoso preparo pessoal que a pessoa tem que ter para ser atuante nesse dia a dia, porque se você não tiver isso. 

E pior, advogados normalmente não têm esse tipo de preparo, vai ser muito mais difícil para você sobreviver nessa realidade. 

Fica aí uma outra dica também, é o livro da professora Michelle Stefano ela da Universidade de Miami e também do centro de Harvard. Ela tem um livro que ela coloca o Delta das habilidades dos advogados. 

E, curiosamente, ela coloca o conhecimento jurídico como base da pirâmide. Ou seja, é algo que todos têm que ter hoje não é um diferencial.

Lógico, você ter um conhecimento mais profundo, mais técnico, que diferencia em alguns casos, mas com a difusão de conhecimento e os diferentes meios, universidades, vídeos, internet, livros, ebooks, enfim. 

Hoje não é mais possível um advogado não ter o conhecimento jurídico. E aí ele começa a se diferenciar com, primeiro, as famosas soft skills, entender de programação, marketing, gestão de projetos, com tecnologia, enfim, entender diferentes áreas numa interdisciplinaridade. 

Mas o diferencial de fato começa com questões como empatia, inteligência emocional e acima de tudo, no topo da pirâmide está a capacidade de você inovar com foco não só na sua organização, mas no seu destinatário, que é quem vai receber aquele serviço, seja essa pessoa um cliente, uma outra parte, quem vai estar em contato com você de fato. 

Trabalhar com inovação, com foco no cliente, foco no serviço são os dois elementos que estão no topo da pirâmide Michelle propõe. Então, o desafio é grande, mas não é impossível. Basta ter seriedade e muito estudo que dá, que é possível se preparar.

Gabriel: Victor, de um lado eu vejo você dizendo que tem algumas questões que talvez não vai aprender com o livro, vai ser convivência como empatia, algumas habilidades mais emocionais.

Indicações de livros que agregam conhecimento na área

Gabriel: E de outro você já citou aqui diversos livros aqui que os colegas advogados podem estar estudando. 

Queria saber se você tem alguma indicação de curso, alguns conteúdos que você critica, que os advogados precisam de estar consumindo e o mais rápido possível.

Victor: Primeiro, vou tentar separar em algumas esferas.

A questão do conhecimento jurídico, ela não deve deixar de existir. 

Então a primeira dica de curso leituras, que eu posso dar enquanto advogado. O que você precisa saber para o seu dia a dia, do ponto de vista técnico e jurídico. Muitas respostas para os desafios tecnológicos da atualidade estão em respostas jurídicas que a gente já tem, que a gente já deu.

Vou dar um exemplo, em um artigo muito bom, que analisa a parte de veículos autônomos. Ele fala, com os veículos autônomos no mercado, essa é uma tecnologia que tende a tornar o trânsito mais seguro. 

Logo, ela tem que ser incentivada, só que ela não vai ganhar escala, enquanto a gente não resolver os problemas regulatórios e jurídicos que ela traz. 

Então, identificando esse problema, ele começa a propor soluções. E uma das soluções que ele propõe como mais ideais. É uma resposta dada pelos Estados Unidos para o problema das usinas nucleares na década de cinquenta, que também eram tecnologias que deveriam ser incentivadas, que também tinham problemas regulatórios de responsabilização por causa de acidentes, esse tipo de coisa. 

E ali foi feito uma estratégia de fundo, como se fosse um seguro, enfim, para poder responder a essa necessidade, que essa nova tecnologia que era a usina nuclear trouxe para a sociedade.

Enfim, ele lembra que os veículos autônomos, além de tudo, já foram um desafio para o ser humano lá atrás. Quando, por exemplo, a gente admitiu um elevador, que o elevador é um veículo autônomo.

O que acontece se o elevador cair, de quem vai ser a responsabilidade? Vai ser do fabricante, do prédio, da pessoa que não soube operar? 

Se tinham as sanções, se não tinha? Do cabo que estava sendo desgastado e ninguém viu. 

Enfim, essas respostas elas foram estudadas, elas foram dadas. Nós só precisamos fazer o mesmo agora. 

Então, estudar o direito, estudar o básico, significa perceber que novos problemas não necessariamente precisam de novas soluções.

Quando estava ali no dia a dia, com as startups, trabalhando no dia a dia do jurídico delas, eu percebia que as respostas às vezes, o problema que a pessoa apresentava, era um programa totalmente novo, que a gente nunca tinha visto. 

Levava para alguns sócios que estão aqui no escritório há mais de trinta, quarenta anos, eles também nunca tinham visto. Só que na hora de buscar essas respostas, estava no código no artigo do Código Civil. 

Então, às vezes, novos problemas, aliás muitas vezes, novos problemas não precisam de novas soluções. Só a gente, só precisa de estudo e fazer o que nós, enquanto advogados, fomos treinados a fazer, que é resolver problemas e propor soluções.

Isso faz parte do nosso treinamento trazer lógica jurídica para o dia a dia da tecnologia e da inovação. Então essa é a primeira dica que eu dou do ponto de vista de estudo, de material.

E sim, voltar para o básico do direito, entender como o direito funciona. Isso é fundamental hoje em dia, porque a gente tem esse estigma de que um novo faz a gente esquecer o antigo. 

Mas a gente não precisa disso, você construir o novo, você precisa de uma base. E essa base às vezes está no que já é praticado há muito tempo. 

E o segundo é sempre olhar para as outras áreas, o que as outras áreas podem nos ensinar para o nosso dia a dia, como advogados. A história do TozinniFreire com a inovação, do think future. 

A gente tem que lembrar, por exemplo, que ela surge, dentre outros fatores, de um contato muito mais próximo com as startups. A gente optou por seguir um programa de inovação independente aqui dentro, estruturado aqui dentro, justamente após ver como startups operavam. 

Como elas ofereciam as respostas aos problemas que elas tinham. Como que era essa cultura dinâmica de pilotagem, de trabalho empreendedor, para depois pensar num programa de inovação. 

Ou seja, absorver esses conteúdos com as startups, esse dia a dia, entender como o empreendedor pensa, opera e funciona, foi fundamental para a gente planejar o nosso. E a mesma coisa que eu sugiro para quem quer estar buscando cursos, está buscando leituras, hoje. 

Vai, dá uma chance para o livro de tecnologia, dá uma chance para o livro de marketing, da uma chance para o livro de contabilidade.

Às vezes você vai descobrir respostas ali, de coisas que você enfrenta no dia a dia, que você nunca ia ver se você não tivesse dado essa chance.

Essa barreira lawyers e não lawyers, ela tem que deixar de existir, ela tem que parar de ser uma regra no mercado, hoje. 

Todas as áreas tem seu valor, a transversalidade é fundamental e não basta apenas você trazer o novo, você precisa também se preparar com o que você já aprendeu a fazer.

Gabriel: Te escutando, eu lembrei de algumas frases. Não se lembro exatamente do autor, mas tem gente que fala que inovação é você combinar coisas que já existem em um contexto diferente. 

Então, vou pegar às vezes uma solução jurídica que já existe e vou aplicar a um contexto diferente. Vou aplicar alguma metodologia utilizada por outro mercado, e agora vou utilizar aqui para os advogados. 

E uma outra questão que eu acho que é muito válido de colegas advogados buscarem inspiração em outros mercados, porque, em geral os outros mercados estão mais avançados em inovação do que o mercado jurídico. 

Porque, em geral, os outros mercados são menos conservadores do que o nosso mercado, então é como se você tivesse às vezes uma bola de cristal da inovação.

Às vezes você consegue ver algumas práticas já estão sendo utilizadas pelas maiores empresas de tecnologia do mundo e que poucos escritórios estão utilizando. Se você se atenta isso antes e começa a aplicar antes, talvez o seu diferencial competitivo vai aumentar perante seus concorrentes. 

Você tem algum recado final, Victor? Acho que esse episódio está muito rico, com muitas referências bibliográficas citadas aqui durante o episódio. 

Considerações finais

Victor: Meu recado final é, não tomar a inovação como algo que amedronte. Olhar isso com um senso de oportunidade de perceber que não há um momento melhor para se ser um advogado, hoje em dia.

O número de desafios é crescente, são desafios complexos. A gente precisa de advogados preparados para resolver esses desafios. São desafios de fato, alguns até mesmo sem precedentes. 

Alguma questão de cripto ativo, por exemplo, que transcende fronteiras, que transcende áreas, vai da parte de seguros até a parte do setor financeiro puro ou de blockchain, imobiliário, enfim. 

São situações cotidianas que vão ser mais recorrentes. E para resolvê-las a gente precisa de advogados preparados. 

Então olhar com esse senso de oportunidade é fundamental para o dia de hoje. Além disso, claro sempre trabalhar de uma forma colaborativa. A gente tem que entender que temos um ecossistema de inovação hoje em dia. 

A inovação não vai ser feita em quatro paredes. Ela precisa ser feita de forma conjunta, de forma colaborativa. Não é porque temos legaltecs que escritórios vão deixar de ser relevantes. Não é porque algumas jurisdições aceitam aquelas estruturas alternativas, como as ALCP’s, como empresas jurídicas propriamente ditas que os escritórios vão deixar de ser relevantes. 

Se então a gente só constrói um futuro juntos, precisa dar a mão, fazer projetos conjuntos, entender que cada um tem sua esfera no mercado e elas trabalham com intersecções. 

Entender que tem espaço para todo mundo, o mundo é enorme, a quantidade de tecnologias disponíveis no mercado hoje, é maior ainda. E a partir daí tem muita oportunidade para a construção. E essa construção ela tem que ser conjunto, ela tem que ser colaborativa, está?

Então, esses são os dois recados que eu dei e ainda como parte dessa iniciativa do segundo, eu convido a quem quiser conhecer um pouco mais do nosso programa do think future, da história do TozziniFreire com a inovação pode entrar no nosso site, é um site específico do nosso programa de inovação, que tem as informações lá. 

E é claro, entrar em contato com a gente, sugerir nosso projeto. Eu estou sempre aberto a novas discussões, a olhar para o mercado realmente com essa ideia de que temos um mundo de oportunidades. E a gente vai saber aproveitar elas melhor, se fizemos todos juntos. Então esse é um recado final.

Gabriel: Muito obrigado, Victor. Primeiramente queria muito agradecer pela sua generosidade e abertura em compartilhar aí um projeto que para alguns escritórios talvez poderia ser sigiloso. 

Vários escritórios talvez não gostariam de compartilhar diversas das informações que você trouxe aqui para realmente agregar valor para os outros colegas advogados que estão nos escutando. 

Eu acho que essa postura diz muito sobre advocacia colaborativa que a gente precisa cada vez mais, nos dias de hoje. E eu acho que isso que leva inovação para os escritórios de advocacia.

Por isso aí que vocês são uma das maiores referências do país, no que se trata de tecnologia e inovação aplicada ao direito e não é à toa. 

Também gostaria muito de agradecer a todos os colegas advogados aqui que estão presentes novamente. 

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Um comentário em “#41: Desafios da inovação em grandes escritórios de advocacia c/- Victor Cabral Fonseca

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