#48: Gestão para advogados e empreendedorismo jurídico – c/ Getúlio Santos

Gestão para Advogados - c/ Getúlio Santos
28 minutos para ler

Você quer saber mais sobre gestão para advogados?

Como iniciar a profissionalização do seu escritório de advocacia? 

Como dividir tarefas administrativas e jurídicas em seu escritório? 

Como criar procedimentos internos para o seu escritório de advocacia? Como utilizar métricas e KPIs em seu escritório? 

O que é um fundo de reserva? Por que o seu escritório deveria ter um?

No episódio #48 do Laywer to Lawyer, o podcast da Freelaw, Gabriel Magalhães entrevista Getúlio Santos.

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Getúlio Santos

É sócio-fundador do Oliveira, Souza & Santos Advogados Associados, empreendedor e investidor em projetos de tecnologia.

Getúlio também é:

Gabriel Magalhães

É um dos fundadores da Freelaw e o Host do Lawyer to Lawyer. É bacharel em Direito pela Faculdade Milton Campos.  

Possui formação em Coaching Executivo Organizacional, pelo Instituto Opus e Leading Group.    

Formação em Mediação de Conflitos, pelo IMAB, e em Mediação Organizacional, pela Trigon e pelo Instituto Ecossocial. Certificações em Inbound Marketing, Inside Sales e Product Management pelo Hubspot, RD University, Universidade Rock Content, Gama Academy e Tera, respectivamente.      

Escute o episódio em seu player de áudio favorito e leia o resumo do episódio abaixo que conta com todas as referências citadas durante a gravação.  

Gabriel: Olá advogada, olá advogada. Seja bem vindo, esse é o episódio #48 do Lawyer to Lawyer da Freelaw, sou Gabriel Magalhães e é um prazer estar aqui com vocês novamente. 

Hoje nós vamos tratar de empreendedorismo e gestão para advogados, como você pode se tornar um advogado empreendedor, aprender gestão e fazer isso na prática? 

Como dividir o trabalho de uma forma eficiente no seu escritório de advocacia, principalmente agora nesse mundo pós-covid e os desafios da advocacia homeoffice? 

E se você ainda quiser avançar mais, como você pode desenvolver iniciativas de tecnologia dentro do seu próprio escritório de advocacia?

Convidamos hoje Getúlio Santos, ele é sócio fundador da Oliveira, Souza e Santos Advogados Associados, é empreendedor e investidos em projetos de tecnologia. Seja bem vindo, Getúlio!

Getúlio: Bom dia para todo mundo que está ouvindo o Lawyer to Lawyer e é um prazer falar com você.

Como fundar o seu Escritório de Advocacia

Gabriel: Obrigado Getúlio, tenho certeza que você vai agregar bastante aqui para os colegas advogados e advogadas que estão nos escutando.

Então fala um pouquinho para a gente como foi o início do seu escritório de advocacia, como você decidiu fundar o escritório, quais foram os desafios iniciais?

Getúlio: Logo no primeiro dia que peguei minha OAB saí do escritório onde estagiava e fundei o meu próprio escritório, mas sempre continuei empreendendo em algumas outras áreas. 

Eu e meus sócios fundamos o escritório no ano da nossa formatura e desde então tenho visto e acompanhado essas mudanças e aprendendo dia a dia como funciona um escritório.

Eu acho que o mundo hoje é propício aos novos e pequenos escritórios, conseguimos ser mais eficientes com todas as ferramentas que temos hoje.

Gabriel: Muito legal, Getúlio! Assim, quando você começou lá e abriram o escritório depois da faculdade, vocês já tinham noção de gestão? 

Como foi aquele início? Como vocês foram aprendendo e se profissionalizando mais nesse ponto de vista de gestão mesmo?

Getúlio: Primeiro, até me corrijam se eu estiver errado pois não acompanho tanto hoje em dia o mundo acadêmico, mas nenhuma faculdade de direito prepara alguém para ser um advogado administrador de um escritório ou empreendedor.

Nenhuma faculdade de direito prepara alguém para ser um advogado administrador de um escritório ou um empreendedor

Ela pode preparar muito bem para a prática jurídica, peticionar, teorias lindas e maravilhosas, mas ser empreendedor não é isso, pois um escritório sem uma figura central de um administrador, sem pessoas que entendam de gestão o escritório tende a patinar durante muito tempo e perder muito tempo numa curva de aprendizados desnecessários. 

Pensando nisso eu optei por buscar uma especialização na área de gestão de negócios para que eu pudesse cumprir esse papel dentro do nossos escritório, isso abriu minha visão como advogado, para entender e dar números, métricas, tudo isso que um advogado sai da faculdade praticamente sem fazer ideia do que se trata. 

A gente tem uma noção de advocacia, temos estágios da parte de petição, mas não sabemos o que é uma métrica, qual o valor da sua hora, se aquele honorário que você está cobrando é barato ou caro, enfim, somente com estudo e prática é que conseguimos entender um pouco mais de gestão. 

Hoje existem ferramentas que antigamente eram inimagináveis para facilitar a administração e a gestão do escritório de advocacia.

Gabriel: Muito bacana, mas assim, como que é a divisão de você com os outros sócios do escritório? 

Você disse que hoje ocupa o papel de administrador, qual a função dos outros sócios? 

Eles também estão conectados com a gestão ou é só você mesmo? Como vocês decidiram essa divisão? 

Conta um pouco mais da realidade do Oliveira, Souza e Santos Advogados, são quantas pessoas e como vocês dividem as tarefas?

Getúlio: A parte de administração eu realmente fico um pouco à frente, tenho aptidão e acho que um pouco de vocação nesse sentido, sempre pesquisei para me manter atualizado sobre essas ferramentas. 

Hoje a nossa administração é basicamente tocada por mim, tem o pessoal do back office e é um trabalho que eu tenho que vestir as duas camisas, como administrador e como advogado, mas sabendo separar esses assuntos.

Às vezes o lado administrador entra em conflito com o lado advogado, mas o essencial hoje é que a gente consiga gerar informação e relatórios para que os sócios que não acompanham o dia-a-dia de administração consigam acompanhar a performance, ajudar nas tomadas de decisão, nas reuniões e nos encontros que os sócios optam por destinação de recursos, enfim, de política a ser adotada e estratégia para ser adotada pelo escritório ao longo prazo.

Com relação à atualidade, somos uma equipe com total de nove pessoas, posso estar esquecendo de alguém envolvendo o nosso pessoal administrativo, estagiários, mas é uma equipe relativamente pequena e eu entendo esse formato como um bem enxuto, no qual temos nos mostrado capazes de escaloná-lo utilizando uma série de ferramentas e técnicas de forma satisfatória, atendendo pequenas e grandes empresas.

Gabriel: Acho bem interessante a divisão que vocês fazem na sociedade de vocês pois fica bem claro os papéis, já que a gente precisa de alguém que vai abraçar a gestão do escritório. 

Então assim, você colega advogado que está escutando o podcast e acha que não é a sua praia mesmo essa parte de números, de entender e profissionalizar o seu negócio, na minha visão, precisa  encontrar um sócio que vai te ajudar nisso, porque se não o seu escritório vai ser amador.

E, principalmente, nesse mundo pós-covid19 que vai ser ainda mais difícil e competitivo, a realidade que está aí vem com uma grande depressão, por isso precisamos ser ainda mais profissionais para sobreviver.

Então, se você é mais acadêmico e busca alguém mais de business para te ajudar ou vice versa, acho que esse exemplo que o Getúlio trouxe pode ser aplicado para você. Não sei se você concorda com essa visão Getúlio. 

Como melhorar a eficiência na execução de serviços

Gabriel: Além disso, você começou a falar de ferramentas e práticas, se você pudesse discorrer um pouquinho mais.

O que você acha que o colega que está escutando agora poderia fazer amanhã para melhorar a eficiência na execução de serviços?

Getúlio: Perfeito, no nosso caso específico, temos por exemplo um advogado processualista contencioso e se eu vou discutir uma demanda com ele, por algum motivo de qualquer cliente, a decisão final é dele, pois ele é o responsável por aquele setor no escritório. 

Mas óbvio que qualquer contribuição é válida, na área trabalhista vamos discutir quantos sócios serão responsáveis pela área trabalhista.

É necessário que a todo momento tenha alguém com a função de administrador ou de gestor do escritório, que às vezes vai sentar e falar: “Olha, esse contrato não está interessante, as horas que estamos gastando não pagam, os honorários não fecham com o gasto de horas dos nossos advogados ou estagiários.” 

Logo, é fundamental que se tenha uma visão financeira do litígio, do escritório e de seus custos fixos, custos de horas, custos de horas dos estagiários, tudo isso é relevante, o advogado tem que aprender a ler métricas. 

E hoje, em trinta minutos no youtube ou com uma pesquisa na internet, você é capaz de ter acesso a fundamentos básicos de controle financeiro e de gestão, o que antes era inacessível. 

Dessa forma, é fundamental que alguém tome frente disso, caso contrário os escritórios vão perder dinheiro, começarão a entender que o dinheiro não entra. 

Então sim, vou colocar algumas coisas básicas que eu gostaria que alguém tivesse me falado desde o início, por exemplo, uma postura simples que tomamos no dia um do escritório: ter um fundo de reserva. 

Fundo de Reserva

Getúlio: Existe um valor fixo de 5% de tudo que entra no escritório, independente de sua origem, que é destinado ao fundo de reserva. É um valor fundamental que há mais de dezesseis anos temos sempre depositado mensalmente.

Para que serve esse valor? Investimento em infraestrutura, cursos softwares e inclusive para se preparar para períodos de vacas magras, que podem acontecer, principalmente nos escritórios pequenos, como é o perfil do nosso. 

Hoje em dia existem milhares e milhares de ferramentas que são extremamente baratas, pelo preço da netflix você consegue contratar um sistema de gestão financeira, o que te dá transparência e credibilidade junto a seus clientes quando você vai criar um relatório de despesas de reembolso, por exemplo.

Enfim, isso é fundamental para qualquer escritório.

Eu, por exemplo, utilizo um sistema super simples, posso falar aqui e se vocês quiserem patrocinar eu já aviso, é o Zero Paper, do quickbooks, é uma ferramenta que eu pago cerca de R$ 30,00 por mês.

Existem ferramentas melhores? Sim, existem softwares mais completos e robustos sobre gestão financeira, mas que os outros sócios não se adaptaram muito bem, então voltamos para um software simples e que atende a nossa demanda, é uma curva de aprendizado.

Eu não podia sair, por exemplo, de uma planilha de Excel e implementar um software extremamente robusto, não tínhamos o procedimento suficiente para alimentá-lo naquele momento, por isso digo que é uma curva. 

Pode ser que o software em algum momento te atenda, mas o importante é estar antenado com o que está disponível.

Antigamente, por exemplo, quando eu falo isso percebo que estou ficando velho, as ferramentas básicas como Trello e Slack, são algumas das que eu estou tentando implementar no escritório. 

Ainda não consegui, mas pretendo fazer pois são ferramentas que permitem que você centralize todas as informações de um determinado assunto em um só canal, evitando e-mail e whatsapp. 

Enfim, são coisas que o escritório tem que estar constantemente buscando novas opções.

Hoje em dia com um sistema oferecido pelos próprios bancos fica super fácil controlar, os softwares financeiros fazem essa sincronização com a conta bancária, o que facilita muito. 

Sistemas de controle processual, eu acho que esses já estão mais enraizados e às vezes os escritórios pequenos pensam: “Ah não, quando eu tiver demanda eu vou pensar num software de gestão de processos.”

Não, você tem que criar agora o sistema, porque o processo de adaptação e de inserção de dados tem que fazer da cultura de sua empresa, o mundo hoje requer isso, logo, se você não tem dados em real time sobre seus processos, sobre o quanto está gastando em cada um, você não tem um escritório e sim um bando de pessoas reunidas peticionando. 

E são ferramentas muito simples, gente, é um Dropbox, principalmente nesse tempo de home office que não sabemos quanto tempo vai durar, você precisa de ferramentas de armazenagem. 

Enfim, nós trocamos o sistema de gestão desse processo no escritório pelo menos quatro vezes nesses últimos dezesseis anos e isso provavelmente vai continuar, temos que estar sempre evoluindo nesse quesito.

Gabriel: Eu acho interessante primeiro que, das ferramenta que você citou, quase todas são feitas para “não-advogados”, não são ferramentas feitas para o mercado jurídico, não aparecem no radar do LawTech onde todos os advogados buscam por inovação começam. 

Então, é um Slack, uma ferramenta de comunicação, um Trello, que é uma ferramenta de gestão de tarefas, um Dropbox, que é uma ferramenta de armazenamento de arquivos em nuvem, o Zeropaper para gestão financeira. 

Dessa forma, são ferramentas fora do Direito que você advogado precisa entender como empresas normais funcionam e ver o que elas usam para a gestão financeira delas, o que elas usam para melhorar a produtividade e com base no que acontece fora do direito adaptar ao mercado jurídico. 

Até porque, em geral, as empresas fora do mercado jurídico são as mais avançadas em gestão, podendo ser um bom espelho para o seu escritório.

Além disso, uma outra questão que me chamou atenção, Getúlio, é que para utilizar as ferramentas você falou a todo momento nas métricas e também na criação de procedimentos internos para o seu escritório de advocacia, o que para mim o ponto principal da gestão de qualquer negócio.

Gestão para advogados

Gabriel: Eu queria saber o que você acha que um advogado poderia fazer para começar a desenhar os procedimentos internos do zero e também para começar a acompanhar as métricas do zero, imaginando que esse advogado não tem nenhuma planilha ainda ou nem sabe o que é procedimento interno, como ele pode começar a ter um básico de acompanhamento dessas duas questões importantes?

Getúlio: No nosso caso, eu vou colocar a minha experiência dentro das empresas que participei e participo, como o meu escritório. 

Bom, acho que todo procedimento tem que partir de uma experiência prática, o que quero dizer com isso? Por exemplo quando eu envio uma informação de determinada pasta diretamente para um cliente ou para alguém da equipe de Backoffice, depois de fazer isso várias vezes vou entender que isso é um procedimento e procurar onde existem possíveis falhas, seja de entrada de dados, seja no envio. 

Uma vez que eu vi os possíveis erros, eu trabalho com a seguinte ideia: “Se eu fosse passar isso para ser feito para uma pessoa, como eu queria que isso fosse feito?”.

Após isso eu escrevo em um artigo o passo a passo e eu mesmo vou seguir esse processo de onde provavelmente vai surgir alguma coisa, algum detalhe, alguma outra dúvida,alguma coisa que eu acho interessante… 

Depois que eu vi isso e realmente consegui explicar isso para um terceiro, eu costumo delegar isso para alguém e ver se a pessoa entendeu o que eu disse. A partir do momento que eu confirmo que a pessoa entendeu passo a ver isso como um procedimento.

Mas uma coisa é fundamental, que eu falo na prática você tem que solicitar sempre feedbacks da sua equipe, pois uma coisa que funciona para você pode não funcionar, por algum outro motivo, para alguém da equipe. 

Então comunicação interna pode sim otimizar procedimentos e deve ser uma constante no escritório. E se você às vezes, voltando naquele assunto de ter uma figura de gestor administrador, está ocupado demais cuidando dos seus processos e não tem ninguém olhando para isso você não vai se preocupar com procedimentos. 

Em relação às métricas, eu acho que uma das primeiras vezes que eu ouvi falar da Freelaw foi um podcast sobre o tema e pensei: “Interessante, advogado falando sobre aquilo, acho que temos algo em comum.”, justamente porque não é comum ver as pessoas falando sobre métrica.

Métricas hoje são fundamentais para qualquer tomador de decisões poder traçar planos e estratégias, isso dentro do escritório de advocacia se traduz em quê? 

Para que os sócios possam saber definir um planejamento estratégico para o seu escritório, ele não será capaz de fazer isso sem métricas ou dados. 

Temos aí, cada vez mais, a questão da jurimetria, que se não passar a ser compreendida pelos advogados – e estou falando de advogados que estão ali peticionando o dia inteiro -, alguns vão ficar para trás nesse mercado, que está em expansão e é capaz de te dar respostas sensacionais e melhorar a performance de qualquer escritório em todos os sentidos.

Gabriel: Eu acho que essas dicas que você compartilhou, Getúlio, são realmente coisas que qualquer escritório de advocacia precisa fazer para começar a ter uma gestão profissional. 

Não é nada de outro mundo, vai ser difícil no início, mas como o Getúlio mesmo disse precisamos criar procedimentos, que é como ensinar alguém a fazer café: “Coloque uma colher de café aqui,depois aquece na água e coloca X colheres de açúcar – ou nenhuma, tem quem não goste.”

Bom, eu já fui em escritórios que tinham receita de café na cozinha, mas não tinham a receita para a execução das petições, para os atendimentos do cliente. 

Assim, criar procedimentos é como criar receitas de bolo ou de café e, aos poucos, o que precisa ser feito como muito o Getúlio destacou é que a equipe se reúna para discutir sobre esse procedimento, que se crie o hábito de isso e por isso que é importante, é uma comunicação constante e que a equipe tenha o hábito de reuniões periódicas para discutir especificamente isso. 

Outro passo para uma gestão profissional, além da criação de procedimentos, é a definição de métricas e o acompanhamento das métricas, algo que você pode eventualmente começar uma planilha com isso.

Como Getúlio disse, isso vai estar atrelado a esse ponto específico de gestão, mas com a jurimetria por exemplo – temos até um episódio específico sobre jurimetria no Lawyer to Lawyer – daqui a pouco esses dados vão estar sendo utilizados de uma forma cada vez maior para peticionar também no escritório de advocacia.

Então, ao invés de eu dizer que: “A jurisprudência majoritária entende isso” falarei: “Setenta e quatro por cento dos julgados do Tribunal de Justiça de São Paulo condenaram a empresa nesse sentido.”

O mundo está ficando cada vez mais próximos dos dados e a gente precisa começar a se aproximar dos dados indicados da melhor forma.

Getúlio: Complementando a questão da jurimetria, tenho alguns parceiros que, com eles, acompanho muito essa questão. 

Em alguns estados a gente é capaz de adivinhar o parâmetro da decisão do juiz antes dele dar a sentença, pois já temos dados suficientes para aquele tipo de caso naquelas condições, logo, a sentença vai ser dentro dessa faixa. 

E isso, em breve, principalmente com a evolução do PJE, que precisa ser ainda maior agora com a questão do home office e isolamento, eles terão que facilitar o acesso à informações, já que pelo PJE é um pouco complicado fazer essa jurimetria nas decisões e movimentações deles, mas você pode mudar, diante em mão, a forma de peticionar, quando souber que aquele juiz decide dessa forma quando essa alegação é feita.

Esse assunto dá um podcast inteiro, pois não só os escritórios utilizam cada vez mais essas técnicas, como o próprio Judiciário está usando ferramentas para decidir em massa.

Dessa maneira, vai chegar um momento em que os advogados vão peticionar demais e o Judiciário conseguirá dar a sentença quase que de forma instantânea, porque ela vai estar analisando os dados dos advogados que, de uma forma ou de outra, têm que acompanhar essa evolução, é um caminho sem volta.

Cenário da advocacia com o Covid-19

Gabriel: E Getúlio, eu sei que você já tem os procedimentos bem definidos, mas com a chegada do Covid-19 certamente deu uma chacoalhada. 

Como que está esse cenário para vocês hoje? Mudou alguma coisa na divisão de tarefas? Quais foram as maiores dificuldades e aprendizados até então?

Getúlio: Sim, existem pessoas que são mais propensas e adaptáveis a esse tipo de alteração, mas o que nós fizemos internamente logo com o surgimento dessa crise foi a convocação de uma reunião de planejamento estratégico, para saber o que cada um achava, quais setores e quais clientes poderiam ser potencialmente afetados e nos preocupamos com o que deveria ser organizado internamente.

Optamos por home office para todos os nossos colaboradores, não sentimentos ainda nesse primeiro momento qualquer alteração substancial que tenha demandado rever nossos processos, mas o processo é isso, deve ser acompanhado para saber se continua funcionando.

Pode ser que algum colaborador não se adapte ao estilo home office, por exemplo: “Ah, eu queria um computador, pois não gosto de digitar no notebook.”, se não tem um gestor acompanhando essas informações não tem como tentar se adaptar e fornecer melhorias para aquele colaborador. 

Então eu acho que está sendo um aprendizado esse Covid-19 e que teremos muitas mudanças no setor jurídico como um todo.

Eu acho que, nesse modelo atual, os grandes escritórios talvez sejam os mais prejudicados, desde os custos fixos muito elevados à questão de compliance e tratamento de informações. 

Por isso acredito que escritórios pequenos e médios terão uma vantagem, que é a de se adaptar mais facilmente à essa realidade. Agora vamos saber se isso vai perdurar ou não.

Gabriel: Acho interessante a forma de você lidar com a crise, a gente até fez um material completo com a análise da Freelaw sobre os impactos econômicos do Covid-19 gerará na advocacia, e um dos pontos destacados é que, como o mundo mudou – existe o mundo pré e pós pandemia – uma  das primeiras iniciativas que qualquer escritório deve fazer é rever o planejamento estratégico e se você não tinha um planejamento estratégico antes da Covid agora é o momento essencial para fazê-lo.

E foi isso que o Getúlio foi analisar com seus sócios, quais são os potenciais impactos, como que a economia pode impactar nossos clientes, onde a gente pode ganhar e perder dinheiro, acho bem legal essa análise. 

Ao mesmo tempo em que vejo que vocês tão com uma cultura de muito teste agora, né? 

Vamos testar para ver como estão se dando os procedimentos, ao mesmo tempo em que criam muitos pontos de contato para manter diálogo com a equipe para que sempre que tiver algum problema nós tentemos resolver ajustando os procedimentos de trabalho online. 

Bom, eu também queria saber Getúlio se você tem alguma aposta específica para as áreas do Direito que você acha que estarão em ascensão ou declínio nessa crise, mas se você não tiver não tem problema.

Getúlio: Só um parêntese, sobre a questão do Covid-19, quero lembrar a importância do planejamento estratégico, aquilo que eu disse lá no início, temos um fundo de reserva de tudo que entra e, por isso, com relação a parte financeira estamos tranquilos, podemos ficar um ano fechados para se adaptar mas temos a tranquilidade desse fundo de reserva que nos mantém tranquilos por um tempo indeterminado, para que assim possamos tomar decisões com maior tranquilidade.

Gabriel: Legal! Agora analisando as áreas do direito de uma forma macro, o que você acha que vai mudar com esse cenário pós Covid-19 depois que os prazos voltarem ao normal?

Getúlio: Bom, eu acho que a parte trabalhista, sempre que há essa onda de desemprego, a parte do reclamante tem uma aumenta substancial, como vimos em 2008 e 2013, agora você que trabalha para o reclamado vai ter que adequar os processos com as alterações de MP’s e decretos, que são quase que diárias nesse governo. 

Então o consultivo nessa parte trabalhista tende a crescer muito, a época de crise traz muitas questões societárias – fusões, aquisições ou até mesmo recuperações judiciais -, que é uma tendência no RJ, provavelmente vai ser um setor que, como na última crise, vimos um aumento significativo.

Falando do ponto de vista mais prático, mas ainda incerto, sobre as demandas consumeristas, eu acho que vamos ter uma explosão, mas eu ainda não sei se isso vai ser bom ou ruim, porque estão falando muito em flexibilização de uma série de garantias que a gente tinha no CC e já estão pensando em não aplicá-las. 

Enfim, sobre isso, temos de esperar. Mas uma coisa que o advogado pode ficar é tranquilo, pois advocacia é um setor anticíclico, ou seja, em recessões costumam ter aumento na demanda, por isso o advogado que sabe se posicionar e tendo uma estrutura enxuta que permita a tranquilidade para exercer determinada tarefa, acho que é uma oportunidade de crescimento geral para um setor como a advocacia.

Os desafios de se tornar um investidor

Gabriel: Muito legal a sua visão, Getúlio. 

Bom, pelo que eu vejo, você já é muito maduro para negócios, inclusive começou assim que saiu da faculdade, abriu escritório, passou pelos desafios de crescimento, profissionalizou a gestão do escritório, consegue fazer uma análise de mercado como essa que você acabou de fazer aqui para a gente. 

E em um determinado momento você também virou um investidor de empresas de tecnologia e até desenvolveu o Zapsign como projeto para o seu próprio escritório. 

Como foi essa transição? Quais são os desafios para se tornar um investidor e o que é, de fato, esse projeto?

Getúlio: Gabriel, na verdade assim, como disse lá atrás, mesmo tendo escritório de advocacia sempre me mantive muito ativo em relação à empreendedorismo, sempre tive projetos paralelos. 

Eu acho que às vezes a burocracia, o Juridiquês, ele me cansa um pouco, sempre participei ativamente de outras empresas, algumas inicialmente vinha para conhecer pessoas e compartilhamos uma visão em comum para determinada solução e, assim, o trabalho se desenvolvia em inúmeros projetos.

Bom, o Zapsign não é um projeto do escritório, mas de uma empresa que eu tenho parceria com um sócio de São Paulo que, internamente, sempre tivemos o seguinte problema, que acho que todo advogado tem, a dependência de assinatura, pois para qualquer documento precisávamos de assinatura física. 

Acontece que o processo se digitalizou e várias ferramentas permitem a assinatura digital, o Autentique, por exemplo. Ocorre que, algumas delas são tão robustas que se tornam um desperdício para quando o uso é mais corriqueiro.

Por exemplo, a comprovação de autenticidade do DocSign é uma coisa maravilhosa, mas um advogado que está diante de uma ação pequena e tem outros meios de prova percebe que é desnecessária tamanha robustez e pagar os valores que essa ferramenta cobra, que pode se tornar um custo muito alto. 

Então, quando a gente se falava pensávamos: “Cara, deveria ter uma ferramenta que você mandava o documento pelo WhatsApp e a pessoa assinava por meio do seu próprio smartphone.”

Assim, criamos o Zapsign, que é basicamente uma ferramenta para assinaturas onde o compartilhamento delas é feito totalmente via WhatsApp, de forma simples em um clique.

Ocorre que veio toda a questão do Corona e pensamos em disponibilizar a ferramenta para terceiros de forma gratuita, lançamos, ela é extremamente nova, tem cerca de quinze dias e surpreendentemente tivemos feedbacks excelentes, até mais do que o esperado. 

Esses dias tiveram uns documentos, dos quais não temos acesso, pois só vemos os e-mails que assinaram, mas era uma empresa utilizando como ata de assembleia com mais de cento e cinquenta pessoas, empresas utilizando para envio da folha de pagamento e recibos de entrega, ou seja, coisas corriqueiras. 

Assim, a ferramenta  é uma forma de amenizar e tentar ajudar o pessoal a ficar em casa nessa quarentena e por isso está disponibilizada no site zapsign.com.br de forma gratuita por tempo indeterminado, vamos deixar lá como uma pequena contribuição para que todo mundo fique em casa.

Gabriel: Muito bacana, o link do Zapsign está no link da descrição do episódio para quem quiser utilizar ou testar a plataforma é só clicar aí e seguir os passos. 

É legal que vocês tenham divulgado isso para o mercado, espero que ajude bastante pessoas. 

Considerações Finais

Gabriel: Bom, você tem algum recado final para os colegas que estão nos escutando, alguma dica para quem quer melhorar a gestão do negócio e, eventualmente, para quem quer investir em projetos de tecnologia e desenvolvê-los da forma que vocês estão fazendo?

Getúlio: Eu quero primeiro parabenizar a iniciativa de vocês, você também como advogado e empreendedor, estamos juntos. 

Eu acho que o advogado tem que sair da caixa dele, ver uma ótica como gestor e empreendedor, absorvendo tudo e qualquer ferramenta de outras áreas que façam com que ele se torne um melhor advogado. 

Então, muitas vezes o advogado tem excelentes ideias, mas por algum motivo deixa isso dentro da caixa, vamos botar isso no mundo, empreender! 

Infelizmente ser empreendedor no Brasil é uma tarefa árdua, mas no longo prazo é o empreendedorismo que vai tirar o Brasil dessa recessão que está chegando e, contando com o apoio de todo mundo, a advocacia tende a prosperar e sair melhor dessa.

Gabriel: Muito obrigado, Getúlio, aprendi muito com você hoje, foi bem prático e seus anos de experiência certamente vão ajudar advogados a reduzir o número de erros que eles cometeriam na gestão. 

Na próxima semana, para voltar com mais um Lawyer to Lawyer da Freelaw e espero que todos estejam bem com o isolamento social e que esse episódio, assim como os outros, esteja trazendo insights e mais esperança para esse momento. 

Acho que é um momento muito importante para repensar o planejamento estratégico para que você busque as melhores oportunidades e cumpra sua função social como advogado, ajude pessoas, mas também consiga criar um negócio viável, por que não é só de ajudar os outros que a gente vive, para ajudar mais as pessoas têm que ter os econômicos do negócio bem definidos ou não vai dar certo.

Então, aproveite o momento para buscar mais material sobre criação de procedimentos, definição de métricas, estamos deixando na descrição do episódio vários materiais que podem estar te ajudando, utiliza lá a solução do Getúlio, o Zapsign eventualmente pode ajudar a realidade de vocês.

Fora isso, precisando de qualquer coisa, entre em contato conosco nas redes sociais, fale com a equipe da Freelaw e estaremos contribuindo da forma que pudermos, vamos juntos e até a próxima semana.

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