#4 Direito e Inovação c/- Lorena Lage
Capa do Podcast com Lorena Lage. Capa do Podcast com Lorena Lage.

#4: Fuck the Box: Direito e Inovação c/- Lorena Lage

29 minutos para ler

Você quer advogar para startups e não sabe como?

Você quer aprender mais sobre Direito e Inovação?

No episódio 4 você pode descobrir isso tudo e muito mais.

No episódio de #4 do Lawyer to lawyer, o podcast da Freelaw, Gabriel Magalhães entrevista Lorena Lage .

Lorena Lage

É advogada, sócia no escritório de advocacia Lage & Oliveira , atuando com Direito para Startups e Empresas de Base Tecnológica. É coordenadora da pós-graduação de Direito e Tecnologia da Faculdade Arnaldo; coordenadora do Grupo de Estudos em Direito na Inovação e no Empreendedorismo.

Ela é diretora de conteúdos e de relações da Comissão de Direito para Startups da OAB/MG . Mestre em direito pela Faculdade de Direito Milton Campos. Especialista em Direito Civil Aplicado pela PUC Minas e bacharel em Direito pela Newton Paiva.

Gabriel Magalhães

Gabriel Magalhães é um dos fundadores da Freelaw e o Host do Lawyer to Lawyer. É bacharel em Direito pela Faculdade Milton Campos. Possui formação em Coaching Executivo Organizacional, pelo Instituto Opus e Leading Group. Possui formação em Mediação de Conflitos, pelo IMAB, e em Mediação Organizacional, pela Trigon e pelo Instituto Ecossocial. Possui certificações em Inbound Marketing, Inside Sales e Product Management pelo Hubspot, RD University, Universidade Rock Content, Gama Academy e Tera, respectivamente.

Escute o episódio em seu player de áudio favorito e leia o resumo do episódio abaixo que conta com todas as referências citadas durante a gravação.

Gabriel: A Lorena antes de tudo é uma pessoa muito querida para mim e para a Freelaw. Ela foi uma das nossas mentoras, lá no início. Com certeza é responsável por onde a gente está hoje.

Eu sou muito grato a você, Lorena. Eu tenho certeza que você vai conseguir compartilhar muitas experiências com outros advogados.

Eu me espelho muito em você e eu espero que vários outros advogados comecem a se espelhar também a partir de agora.

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Não se preocupe, não fazemos spam.

Lorena: Obrigada Gabriel! Também estou superanimada, agradeço demais o carinho, é recíproco. Com a Freelaw, e também é recíproco com você.

Me espelho muito em vocês, acho sucesso demais o que vocês têm feito, o trabalho que têm desempenhado. Inclusive parabenizo por esse podcast que é uma iniciativa sensacional.

Muita gente me perguntava, onde ter acesso a conteúdo de direito relacionado a empreendedorismo; inovação; tecnologia e vocês estão brilhando nesse podcast.

Gabriel: Muito obrigado Lorena. Mas conta um pouquinho mais sobre você.

Como é que foi lá do início da faculdade, você sempre quis trabalhar com startup? Como foi esse início aí?

Lorena: É engraçado pensar nessa caminhada. Quando eu estava na graduação nem sabia o que era startup.

Para ser sincera, nem imaginava o que era esse mundo e o que aconteceria.

Eu gostava muito de direito digital e de inovação, especificamente por contratos eletrônicos.

Sempre tive um interesse por empreender, mas nunca soube como. Nunca tinha pensado no advogado como um empreendedor.

Então na graduação eu iniciei minhas pesquisas em contratos eletrônicos, o ambiente virtual e ali que começou a minha aproximação.

Eu formei na graduação, já fui pensando em montar meu escritório junto com o Robert, que é meu sócio e meu noivo hoje.

Pensávamos em levar o preventivo jurídico para pequenas e médias empresas. A gente via e vê muita empresa dando errado por falta de um auxílio jurídico básico.

Nós queríamos levar essa proposta de mudar o pensamento da sociedade que o advogado e a parte jurídica só são úteis na hora do problema. Queria mostrar que era muito melhor prevenir.

Nesse caminho, a gente foi se especializar. Me especializei em Direito Civil Aplicado porque não tinha especialização em direito digital ou direito e tecnologia por aqui na época.

Mas já levei também essa especialização para o lado do Ambiente Digital, do direito e tecnologia. Aprofundei meus conhecimentos em contratos eletrônicos no ambiente digital.

Decisão de advogar para startups

Lorena: Foi importante porque a gente não tinha nenhuma especificidade. Fomos seguindo com o escritório e por causa desse nosso conhecimento no ambiente digital, nós fomos procurados por startups e empresas de bases tecnológicas.

Percebemos que tínhamos muito mais sinergia com essas empresas, porque elas conseguiam entender muito mais o valor do preventivo jurídico.

Nos aproximamos cada vez mais. Brincamos que nossa virada de chave foi no dia que tivemos uma reunião com uma empresa muito tradicional de manhã, uma reunião de prospecção e a reunião foi superchata.

Tivemos aquela reunião com a pessoa que não é decisória, dávamos dicas da parte jurídica e a pessoa não estava nem ouvindo. Só queria saber de preço e ponto.

Nós vimos que não conseguiríamos mostrar o valor agregado desse preventivo jurídico, que era nossa proposta.

Nesse mesmo dia, à tarde, tivemos uma reunião no CID, que é um programa de aceleração para startups do governo de Minas. Em um ambiente sensacional.

Tivemos uma reunião com um cliente nosso e em seguida uma reunião também de prospecção, e foi outra coisa.

O ambiente é diferente, os empreendedores nos ouvem de verdade, têm interesse em evitar litigar, não querem contencioso, querem solução jurídica.

A conversa foi das melhores, passamos à tarde no CID e quando saímos, eu e o Robert falamos: é aqui que a gente vai trabalhar, aqui que vãos encontrar nosso propósito. Daquele dia em diante, não trabalhamos mais com empresas tradicionais.

O propósito para mim é uma das coisas mais importantes que devemos ter para conseguir trabalhar com prazer. E nesse dia a gente conseguiu virar a chave.

A partir dali, no dia seguinte a gente já começou a atualizar nosso site, já começamos a ir finalizando demandas que tínhamos com empresas tradicionais e focamos em startups e empresas de base tecnológica.

Nesse meio do caminho eu vi a necessidade do mercado de ter algo relacionado a direito e tecnologia.

Eu gosto muito de ensinar, já dava muita palestra, gosto de dividir conhecimentos. Então fui fazendo as duas coisas em paralelo.

Já fui pensando no meu mestrado, para efetivamente aprofundar meus conhecimentos e ter a possibilidade de ensinar mais outras pessoas.  Desenvolvi essa pós-graduação em direito e tecnologia que era uma demanda que eu via.

Brinco também que é o curso dos meus sonhos. A matriz curricular que a gente desenvolveu para essa pós, com um corpo docente fora da curva, é o que eu gostaria de ter tido quando eu fiz a minha especialização.

Não tinha nada na área, mas têm sido uma caminhada muito sensacional, fico muito feliz com todas essas iniciativas, que são muitas, mas todas muito bem pensadas e sincronizadas.

Têm auxiliado muito no nosso desenvolvimento aqui no escritório e do meu propósito como um todo.

Gabriel: Legal demais, você compartilhar isso, Lorena.

Eu que vivo também num ambiente de startup, é muito nítida a diferença. As pessoas brilham mais os olhos e é muito bacana estar envolvido com pessoas que também pensam assim.

Eu tenho uma pergunta para você, eu vejo muitas pessoas nos últimos tempos com esse movimento de direito e tecnologia, que agora estão querendo trabalhar com startup.

E todo mundo fala que quer trabalhar com startup, muitas pessoas às vezes falam que trabalham, mas não efetivamente trabalham.

Como você vê isso, acha que está saturado de alguma forma?

É fácil alguém que seja um advogado tradicional e queira começar a trabalhar em startup?

A barreira de entrada é baixa nesse mercado? Como você vê essa questão?

É difícil traçar uma carreira especializada em direito e inovação?

Lorena: Eu vejo que é um mercado muito promissor, mas que as pessoas, principalmente os advogados, não conseguem pensar nesse mercado de uma forma mais adequada.

Para mim, o grande erro é não tentar entender o que realmente o empreendedor quer, como que é a jornada desse empreendedor. E você sabe pela Freelaw que essa jornada não é fácil. São diversas questões, muitos pontos, e o advogado não costuma conhecer essa jornada.

Então se o mercado está assoberbado. Porque tem muita gente falando que advoga para startup, que atua como startup. Mas é muita gente falando e pouca gente realmente fazendo.

E isso acontece em todos os mercados, então de fato tem muita gente que fala que atua, que é advogado de startup, e nem tem nenhuma startup no portfólio e nunca atuou no direito inovador. Isso é uma realidade de qualquer mercado, não é só nesse segmento específico. Então eu vejo que tem espaço sim.

Atuamos aqui no escritório só com startup e empresas de base tecnológica. Ainda tem muito espaço para quem quiser começar atuar nessa área, é uma necessidade.

Nós temos diversos clientes que mesmo sendo startup, não são eventualmente nosso perfil. Precisam de outras necessidades e poderiam ter outros advogados para atendê-los.

Enfim, essa conexão é muito pessoal, o trabalho do advogado tem que ser muito bem conectado e faltam pessoas preparadas. Eu não acho que seja difícil, mas o advogado tem que realmente querer e se entregar.

E aí que está a grande questão, muita gente quer atuar com startup, mas quer entender a startup, tem interesse de vir com a parte jurídica tradicional e tentar aplicar igual para startup, para empresas de base tecnológica. E isso não funciona.

A startup tem diversas necessidades que são diferentes, tem demandas que são diferentes.

Aqui no escritório a gente tem uma linha. Não trazemos o direito e mandar a startup se adequar aquilo. Muito pelo contrário, a gente entende o que a startup precisa, todos os seus detalhes e seu modelo de negócios.

Entramos a fundo na startup, para só depois ver como que o direito se encaixa.

Em diversas situações, o direito nem se encaixa. Porque a startup está de fato sendo disruptiva de alguma forma. Ela trabalha num ambiente de extrema incerteza que nem sempre vai encaixar com o direito tradicional, com o mundo jurídico tradicional.

Então a gente vai trabalhar com os riscos e tentar modificar essa realidade, adequar e não o contrário.

Não é simplesmente falar que ela tem que se adequar ao meio jurídico, porque fazendo isso o advogado acaba matando o modelo de negócios de uma startup.

Então é um mercado que tem espaço sim, é promissor. Muita gente fala que é uma modinha, mas não acho que seja.

A tecnologia está aí. Estamos na quarta revolução industrial e economia do conhecimento, tudo isso está a pleno vapor. Eu tenho certeza que são coisas que vão só aumentar de demanda e de necessidade.

O perfil do empreendedorismo mudou, o empreendedorismo em si mudou muito. Agora os advogados é que precisam se adequar.

Eu falo muito sobre isso, o advogado agora tem que dar um salto enorme de um ponto 1.0 direto para o 4.0.

Entender quais são as necessidades desse novo momento, dessa quarta revolução e como que a gente pode atuar nessa nova realidade.

Gabriel: Lorena, me chamou muita atenção, o que você falou dessas novas habilidades do advogado. Temos até alguns artigos no blog da Freelaw, que falam exatamente sobre esse tema.

Quando eu converso com alguns advogados sobre isso, eles alegam não ter estudado esse assunto na faculdade.

Você disse que para advogar para startup, muitas vezes você tem que entender o modelo de negócios e a linguagem do empreendedor.

Que conselho você dá para alguém que quer começar a trabalhar com esse tipo de empresa hoje?

Eles poderiam fazer sua pós-graduação?

Como se qualificar adequadamente

Lorena: Com certeza. Nossa pós-graduação em direito e tecnologia visa justamente aliar essa parte prática. Levar essa parte prática e teórica para os advogados que não tiveram esse conhecimento na faculdade, e querem ter.

Com muito foco na prática do que a gente pode fazer para mudar. Porque não adianta só pensar que precisa fazer algo, precisa de fato fazer.

Então, minhas maiores dicas nesse contexto, são realmente entender qual é o seu interesse e como você pode alinhar isso, como você pode agir diferente.

Para mim não tem desculpa, Gabriel. Porque estamos vivendo a economia do conhecimento, a informação está na palma da nossa mão literalmente.

Todo mundo pode dar um Google hoje e já vai retornar com infinidades de possibilidades de conteúdo, de aprendizado etc.

No Youtube, temos diversos canais hoje que conseguem levar conhecimento de qualidade. A própria Freelaw faz isso muito bem trazendo conhecimento de direito e inovação no blog.

Então o conhecimento está na palma da mão, basta dedicar para aprender e buscar a prática.

Quando eu falo buscar a prática, é conversar, trabalhar muito bem o seu networking, entender melhor os empreendedores, entender melhor a jornada dos empreendedores e ir a eventos de empreendedorismo.

É muito importante a gente ver tudo o que está acontecendo na prática. Na teoria tudo é muito lindo, e nem sempre na prática é. E vice e versa, acontece também o contrário.

Então além de estudar muito, que é importante, é na prática que o conhecimento propriamente vem.

Sempre buscar ser diferente, ter o seu diferencial.

Para mim a grande habilidade que a gente precisa aprender a ter, principalmente no meio jurídico, que fomos doutrinados pelo contrário, é a empatia.

Saber colocar-se no lugar do outro para gente poder realmente entender o que ele precisa e atuar de acordo com isso.

A dica principal é realmente colocar a mão na massa. Pesquisar e praticar.

Só assim nós vamos conseguir evoluir e eventualmente atingir uma perfeição. Perfeição essa que eu nem sei se é possível em algo que muda com tanta frequência.

Gabriel: Legal, Lorena. Gostei muito dessa frase: “não tem desculpa.”

E não tem mesmo. Hoje está tudo disponível para quem quiser buscar. Por mais que a gente não tenha aprendido na faculdade, ainda assim tem muito conhecimento disponível.

Eu escutei aqui você falando de network, de eventos, e você também falou um pouco antes a respeito do site do escritório de vocês. Eu queria entender um pouquinho melhor como você capta clientes.

Eu sei um pouco porque sou um “mentorando” de vocês, tive vocês como referência.

No evento que a Freelaw foi criada, para quem não sabe, surgimos a partir do Globo Legal Hackathon, que é uma competição de direito e tecnologia. E a Lorena estava lá, como mentora, nos ajudando de forma gratuita.

Naturalmente, quando a gente pensa em advogado para startups, sempre lembramos da Lorena. Eu tenho certeza que não sou só eu que penso dessa forma.

Então, além de eventos como esse, você tem uma estratégia de captação de clientes? Como que funciona?

Estratégias efetivas para captar clientes

Lorena: Legal, o objetivo está sendo alcançado, Gabriel.

Eu acho que como eu disse no início, acima de tudo para mim vem o propósito. O propósito do que eu quero com a minha profissão, do que eu quero exercer, do que eu quero levar para o meio.

E de fato, eu quero auxiliar outras pessoas nessa caminhada, tanto no meio jurídico quanto o empreendedor sobre o meio jurídico. São duas vertentes que eu gosto de trabalhar.

Um conceito do empreendedorismo que para o meio jurídico pode ser novo e a gente trabalha muito quando fala do ecossistema, do ambiente de startup, é o Give First.  

Give First é dar primeiro, devolver ao mercado, ao ecossistema, a sociedade o que você aprende, o que você tem de conhecimento, antes de tentar querer qualquer coisa dos outros.

Esse é um princípio aqui do escritório. Tudo que a gente tem de possibilidade a gente dá primeiro. Entregamos conteúdo, em total acordo com a quarta revolução, a revolução da colaboração.

Quando eu estou colaborando com todo esse meio eu não estou pensando nisso, mas eu sei que o que é bom vai voltar, porque eu estou plantando.

Nós temos uma frase antiga como lema: quem tá semeando vai colher aquilo que plantou, e é uma realidade. Levamos isso como princípio e através disto estamos nos posicionando.

É uma forma de captação, ao mesmo tempo que estou presente em eventos, auxiliando no ecossistema, auxiliando outras pessoas, estou presente me tornando uma referência.

Da mesma forma que eu vou a eventos dar palestras, auxiliar outras pessoas do meio jurídico e do próprio meio de empreendedorismo, eu estou trabalhando com meu público alvo, que são empreendedores.

Por outro lado, estou auxiliando o ecossistema, o meio jurídico, para as pessoas que querem aprender sobre aquela área e me tornando referência para elas também.

Muita gente não pensa nisso, mas a gente ajudar as pessoas, os nossos colegas de profissão, nós também nos tornamos referência para elas.

Nós também auxiliamos, e se for um caso, um cliente aparecer para elas, pode vir a me indicar. Isso acontece muito, colegas advogados me indicam.

Então trabalhamos muito dessa forma e também com nosso conteúdo digital. Mapeamos para entender como podemos acessar os nossos clientes.

Uma das grandes estratégias foi falar a língua do nosso cliente dentro dos lugares que a gente vai conseguir acessar esses clientes.

Então conseguimos acessá-los via Linkedin e Instragram.  O Facebook tem caído um pouco, mas ainda é uma rede que faz sentido se posicionar. Nós vamos chegando perto dos nossos clientes com conteúdo.

Eu ouvi nos dois últimos podcasts da Freelaw, tanto o Pedro quanto a Jaqueline falaram dessa questão de o código de ética limitar o Marketing jurídico, mas mesmo limitando a gente tem muito o que fazer.

Uma dessas possibilidades é entregar conteúdo, auxiliar outras pessoas para que a gente se torne referência e elas possam nos procurar quando houver necessidade. 

O Instagram, para mim, inclusive é uma surpresa. Porque eu tenho muito retorno de clientes interessados a partir do instagram. Tanto o pessoal quanto o profissional, do Lage e Oliveira.

Hoje nossos clientes querem lidar com pessoas. Então se posicionar enquanto pessoa, a Lorena Lage e não o Lage e Oliveira leva muito mais sintonia para o meu público alvo, pelo menos.

Eles se conectam comigo, Lorena. Chega no momento que eles precisam de algum auxílio jurídico, nessa área e me procuram.

São estratégias que vêm a partir de um propósito.

Gabriel: Que legal você compartilhar isso. Eu acompanho muito o trabalho de vocês nas redes sociais. Vocês são um dos escritórios que fazem isso da forma mais bem-feita que eu já vi.

Inclusive o instagram da Lorena é muito bem engajado, o conteúdo é muito legal, vale a pena vocês seguirem.

Lorena, eu tenho uma pergunta. Sempre que eu falo de economia colaborativa e economia compartilhada, vários advogados começam a me questionar se outro advogado não roubaria o seu cliente. Ou então que se gerar conteúdo para o cliente, ele não vai mais precisar do meu trabalho, porque ele já resolveu o problema dele.

O que você acha sobre isso? Você já escutou alguns advogados falando dessa forma também?

Economia colaborativa: como aplicá-la da melhor forma

Lorena: É o que a gente mais escuta.

Quando a gente vive esse mundo de empreendedorismo, de inovação e tecnologia, lidamos com pessoas colaborativas. Quando voltamos para o meio jurídico sempre se nos deparamos com isso.

Infelizmente o meio jurídico não entendeu por completo o que é uma economia colaborativa, o que é a quarta revolução, a revolução da colaboração.

Realmente isso pode acontecer, no meio tradicional da mesma forma que acontece entre empresas de base tecnológica, inovadoras e startups.

Esse conceito não chegou tão forte. Mas eu entendo ao mesmo tempo que se você não fizer nada, não der esse passo e não mudar, não adianta querer que as coisas mudem.

Se você quer atuar de forma diferente, se você quer seguir, se você quer se tornar referência em algo, mude suas ações. Não adianta querer que as coisas mudem se você não mudar.

E, por outro lado, quando você colabora, volta para você. Eu falo por experiência própria.

Respondo todos os advogados que entram em contato comigo pelo Instagram, por e-mail, pelo LinkedIn. Eu retorno, dou auxilio e mando conteúdo. E eu vejo que isso volta para mim, hora ou outra.

Seja me indicando, seja quando encontro na minha pós-graduação, em direito e tecnologia.

Vejo que o pouco que eu comecei a contribuir despertou algum interesse e eles estão comigo agora, são meus alunos ou clientes.

Quem aprender e começar a praticar vai sair na frente, como eu tenho saído, como você tem saído.

Um network é muito mais importante que o medo de tentar, trancar tudo as setes chaves. Inclusive, tudo que você poderia receber de volta, você vai literalmente trancar tudo e sumir no mercado.

Gabriel: Eu acho que assim, realmente existe um risco para quem tem esse medo.

Claro que existe o risco de alguém roubar a sua ideia, de alguém te copiar ou do cliente às vezes não fechar o contrato com você depois que você compartilha um conhecimento com ele.

Mas por outro lado, os benefícios gerados quando você gera esse valor para as pessoas são muito maiores do que os malefícios, na minha opinião.

Então, as vezes eu posso até realmente não ir no advogado depois que eu li o artigo que ele escreveu, porque resolveu meu problema. Mas se eu tiver um problema maior, com certeza eu vou lembrar desse advogado.

Então quando eu tiver um problema mais complexo, com certeza vou buscar o auxílio desse profissional.

Lorena: Com certeza, você se torna um profissional de referência para aquela temática. Por mais que aquela pessoa não te procure naquele momento.

Quando ela eventualmente precisar de um profissional, ela foi procurar primeiro quem gerou confiança, você será a opção dela.

Eu aprendi muito também com empreendedores de startups que não adianta você ter a melhor ideia do mundo, ter a melhor estratégia se ninguém te conhecer.

Eu preciso realmente mostrar e executar. Quem executar vai sair na frente. Se outro profissional ganhar é porque você errou em alguma coisa na execução, não foi só pela ideia. Então a ideia ganha o cliente junto com a execução.

Nós advogados, precisamos aprender com isso. Nós precisamos sim, nos mostrar. A gente precisa se posicionar no meio para podermos conseguir alguma coisa.  

Se seu público alvo não te vê, você não é ninguém e vai estar perdido no mercado, esquecido.

Gabriel: Sim, Lorena. Uma questão que eu acho interessante sobre a sua trajetória é que você busca dois lados.

Você busca o lado prático, frequentando eventos de empreendedorismo, indo para o lado do mercado mesmo. Por outro lado, você ainda tem a carreira acadêmica.

Pelo menos pela minha visão, a maioria dos profissionais tem o lado acadêmico ou o lado prático.

Como que você vê isso?

Você realmente vê importância nos dois?

Porque você está indo pelas duas frentes?

Lorena: Bom, eu senti a necessidade ao longo da minha evolução profissional, de buscar as duas frentes. Porque, sem a prática não saberia nada do que eu sei.

Aprendi muita coisa com a prática, de fato. Com os empreendedores, com meu público alvo, buscando entender o que eles precisavam etc. e como funciona a realidade deles.

E a parte acadêmica, não foi uma escolha, apareceu como uma necessidade.

Eu tive a escolha de querer aprofundar meus conhecimentos, porque eu estou numa área que não temos muita coisa pronta.

Eu queria apoio, quase que como de mentores, de profissionais e professores. Pessoas que pudessem me “mentorar” e me orientar mais em conteúdos acadêmicos.

Nessa parte de direito e tecnologia, muita coisa vem do direito norte-americano.

Então a gente precisa buscar muito conhecimento e eu vi essa necessidade de aprimorar também.

Eu precisei disso dentro da minha área de atuação.

Todo mundo que precisa disso? Não necessariamente. Depende área que você atua, depende de seu interesse, depende do que você quer buscar.

Para mim fez sentido, inclusive pensando nesse meu interesse de lecionar, de dar aula, de levar mais conhecimento a mais pessoas.

Não necessariamente é uma necessidade, mas de toda forma para mim, o balanço, uma situação ideal é procurar a prática do direito.

O conhecimento para nós do direito é a doutrina. Entender a jurisprudência, e continuar estudando.

Nunca estagne seus estudos

Gabriel: Concordo 100% com o que você disse, Lorena. Principalmente quando você disse a respeito de parar de estudar.

Há pouco tempo uma tia veio falar assim comigo “você formou na faculdade, agora parou os estudos.”

Na verdade, os estudos só começaram. Cada dia é uma coisa nova.

Amanhã vou estudar marketing, depois de amanhã vou estudar sobre gestão ágil, depois vou estudar sobre direito ou uma questão que pode ser importante, depois vou estudar sobre como gerenciar produtos digitais.

Então, acho que com essa nova era do conhecimento a gente tem que estar cada vez mais buscando novos conhecimentos.

Lorena: E conhecimentos além do mundo jurídico. Foi exatamente o seu exemplo da sua realidade.

Eu também não fico, apesar de ter essa frente acadêmica, de agora finalizado meu mestrado, também não fico só no mundo jurídico.

Em determinados momentos eu preciso focar no jurídico, mas eu aprendo muito além, inclusive por curiosidade.

Na minha dissertação de mestrado, eu li autores do marketing e do design, e levei isso para o mundo jurídico. Hoje, precisamos aprender de forma interdisciplinar. 

Inclusive, eu estava comentando com Robert, meu sócio, que eu fiquei muito desapontada com o meio jurídico depois de buscar conhecimento em outras áreas.

De ver o quanto as pessoas, as outras áreas estão preocupadas em entender a jornada da sociedade, das pessoas, dos usuários. O mundo jurídico simplesmente acha algumas coisas, entende alguma coisa e quer impor.

Eu fui mostrar isso no meu trabalho, mostrar o quanto a gente pode aprender com a jornada do cliente, para entender o que realmente o cliente quer, as proteções jurídicas que ele precisa. Isso é necessário, de forma interdisciplinar.

A gente não pode se afogar só no direito e cada vez mais eu aprendo isso.

Estudar sempre, mas não só no meio jurídico. A gente precisa entender muito além, muitas outras coisas e adaptando de acordo com a sua atuação.  

Você agora se está focado no empreendedorismo vai buscar metodologias ágeis e vai tentar melhores formas de atuação.

Eu, no meio jurídico, estou tentando entender mais sobre a jornada dos clientes, dos meus clientes.  Então eu estou estudando user experience e Marketing.

Pode acontecer de passarmos por um momento diferente e ter que buscar outras formas, que eu vou estudar mais de administração e gestão. Cada momento é um momento, a questão é: buscar conhecimento sempre.

Dificuldades e conselhos para quem quer inovar no Direito

Gabriel: Muito legal Lorena. Tenho algumas perguntas finais para você.

Quais são os seus maiores desafios hoje? 

Se você começasse, se você tivesse os conhecimentos que você tem hoje, lá na época que você entrou na faculdade, o que você teria feito de diferente?

Dê um conselho para alguém que está começando hoje.

Lorena: Bom, os maiores desafios que eu encontro hoje na minha atuação é encontrar pessoas que tenham esse mesmo perfil profissional ou um perfil parecido, que consigam compreender essa realidade que a gente está vivendo.

Eu não costumo encontrar profissionais que compreendam bem dessa área, que consigam entender a área para poder desenvolver em conjunto e até eventualmente crescer o meu escritório.

Então, hoje com o modelo de negócio que a gente criou e desenvolveu são necessários profissionais com qualidades empreendedoras, que entendam de startups, para depois aplicar o direito. Isso é uma dificuldade que temos no mercado.

O maior desafio para a gente hoje é o meio jurídico ultrapassado que ainda não evoluiu desse 1.0 para o 4.0.

Então nos vemos lá na frente atuando com diversas coisas que do futuro. Mas isso se torna cada vez mais difícil, lidando com pessoas que estão atuando como no passado.

Gabriel: Realmente o Judiciário é bem desanimador. Qual conselho que você daria para alguém que está começando hoje?

Lorena:  Muito além de tecnologia, aqui no escritório, a gente pensa muito na inovação. Em inovar de alguma forma.

Então não necessariamente você precisa inovar através da tecnologia.

Com tecnologia eu uso diversas ferramentas no meu do dia-a-dia para poder me organizar, para gerir a minha atuação no meu dia a dia, o meu contato com os clientes.

Então eu uso o Trello, o iTurn de gestão de processos, o Clicksign eventualmente, Juris Correspondente e a Freelaw.

Enfim, usamos diversas tecnologias. Mas, muito além disso, a gente trabalha a inovação interna no escritório.

Um exemplo prático. Estávamos na nossa sala de reunião um dia, nos deparamos com o empreendedor, encolhido no canto dele.

Depois, fomos entender que nossa sala de reunião estava muito chique e nada proporcional com o perfil desse empreendedor de startup.

Fizemos uma reforminha básica no escritório, mas pra deixar mais aconchegante e mais light.

A nossa forma de vestir também. Nós percebemos que estávamos atuando de uma forma como Direito nos ensinou, como a faculdade nos ensinou, extremamente formais etc.  

Isso não era o que encaixava com o nosso público alvo. Então, nós mudamos a nossa forma de vestir.

A inovação, as formas de evoluir, vão muito além da tecnologia. As vezes mudanças básicas da nossa forma de atuação vão evoluir muito o nosso trabalho.

Nós conseguimos seguir sem nos preocupar demais, só com a tecnologia, mas mudando. O importante é detectar o que podemos mudar, para inovar e para atuar diferente.

Nós precisamos ser abertos a mudanças e nos adaptar as novas realidades.

Gabriel: Muito legal o depoimento, Lorena.

A gente tem um artigo no blog da Freelaw que título dele é justamente o seguinte: Por que você deve inovar antes de buscar tecnologias? 

Pouco vai adiantar o advogado buscar uma tecnologia, até automatizar um documento, aumentar eficiência na execução de serviços, mas se ele não tiver a mentalidade inovadora, ele vai acabar sendo engolido pelo mercado.

Eu me lembro agora de uma passagem do livro Tomorrow’s Lawyers, que diz que com o direito a gente tem novas possibilidades, agora com a tecnologia no direito, a gente tem novas formas de exercer o direito de formas que não eram possíveis. Se pensarmos exclusivamente em usar a tecnologia para aumentar a eficiência, as vezes estamos perdendo muita coisa.

Então, temos que aproveitar todas essas tecnologias para mudar a nossa mentalidade. Para que a gente pegue novas possibilidades, que seja reformando parede ou mudando a forma que fala com o cliente.

Lorena: Com certeza. Pode ser que seja que você chegue à conclusão que a tecnologia é a necessidade, mas primeiro é preciso entender todo esse caminho.

Entender o que você talvez pode fazer de diferente para efetivamente buscar as tecnologias certas, se forem o caso.

A tecnologia vem depois, primeiro é necessário traçar bem qual é o nosso interesse, qual é a necessidade de modificar de inovar. Para depois ir para a tecnologia, senão você se perde em meio a tanta tecnologia, porque é o que a gente mais tem hoje, inclusive.

Gabriel: Muito legal essa experiência, Lorena.

Eu queria saber se você tem algum recado final para o nosso ouvinte.

Lorena: Bom, Gabriel. Eu queria agradecer muito, é um prazer ter essa possibilidade de falar com mais pessoas, de mostrar como eu atuo e como as pessoas podem implementar novas formas de atuação no seu dia-a-dia.

A minha dica é não ficar parado. Não esperar, não ser inerte e achar que algo vai acontecer.

Então tentem pensar no dia-a-dia de vocês mesmo, avaliem o que vocês têm feito para poder mudar, para ter o resultado que vocês desejam.

Não adianta só querer. Busquem conhecimento, aliem à prática e tentem agir diferente, tentem agir fora do que a gente chama da caixinha.

Nós falamos muito do think outside the box, e esses dias eu aprendi e tenho gostado mais do fuck the box.

A gente tem que parar de pensar na caixa e agir diferente.

Depois você vê o que deu, se deu certo deu, ótimo. Se não deu certo você aprende com o erro e segue para uma nova experiência.

Mas haja diferente, se não nada de diferente vai acontecer.

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